terça-feira, 12 de setembro de 2017

O que é Teologia e qual sua importância para a igreja?




1.      O que é teologia?

Ao longo da história da igreja, a teologia, bem como os teólogos, tem sido vista ora como heroína, ora como vilã. Sim, a teologia é um travesseiro onde um lado foi bem lavado e o outro está com cheiro de mofo, podendo deixar bem doente aquele que nela repousar. Mas o que é realmente a teologia? Uma ciência? Arte? Profissão? Vocação? Curso superior? É benéfica ou maléfica para a igreja? Para responder satisfatoriamente tantas perguntas deve-se, em primeiro lugar, traçar uma correta definição do que venha a ser teologia.

Geisler (2010) definirá teologia como “o discurso racional a respeito de Deus” e acrescentará que a teologia dita evangélica é o “discurso a respeito de Deus que enfatiza a existência de certas crenças cristãs essenciais, que incluem a, mas não se limitam à, infalibilidade e inerrância da Bíblia somente, a tri-unidade de Deus, o nascimento virginal de Cristo, a divindade de Cristo, a total suficiência do sacrifício expiatório de Cristo pelos pecados, a ressurreição física e miraculosa de Cristo, a necessidade da salvação somente pela fé – somente através da graça de Deus, baseada somente na obra de Cristo -, o retorno corporal físico de Cristo a este mundo, a felicidade eterna e consciente dos salvos, e o castigo eterno e consciente dos não-salvos.”

Já Ferreira e Myatt (2007) vão conceituar como “a ciência que extrai o conhecimento de Deus e de sua revelação, que estuda e pensa sobre ela sob a orientação do Espírito Santo e então, tenta desenvolvê-la de forma a honrar a Deus.” O autor também diferencia os conceitos de teologia e religião, afirmando que esta última é uma pesquisa sobre todas as religiões e seitas mundiais que usa de várias ferramentas metodológicas, tais como sociologia, antropologia, entre outras. Já a teologia é mais especializada, por tratar das doutrinas e temas de uma religião específica.

Erickson (2015) vai iniciar sua definição lembrando que o ser humano é “incorrigivelmente” religioso e, portanto, sempre estabelecerá contatos entre ele e o divino e, nesse contexto, a teologia é “o estudo ou a ciência de Deus”, ou: “é a disciplina que procura afirmar, de modo coerente, as doutrinas da fé cristã, fundamentada principalmente nas Escrituras, situada no contexto da cultura em geral, verbalizada numa linguagem atual e relacionada com questões da vida”. O autor também considera importante diferenciar teologia e religião, afirmando que a primeira está para a última assim como a psicologia está para as relações humanas.

O que há de comum nas três definições? Primeiro, todos os autores buscam dar um conceito amplo de teologia como ciência que estuda o divino e, nesse contexto, toda religião tem sua teologia própria, mas também nos fornecem o conceito restrito, que é o conceito de teologia evangélica. Portanto, devemos ter em mente que teologia não é restrita ao cristianismo e sua vasta amplitude nos motiva a caracterizar sobre qual tipo de teologia estamos considerando. Vale ressaltar que dentro do próprio cristianismo encontramos diversas “sub-teologias” que carregam inúmeras diferenças conceituais.

A teologia cristã tem 5 divisões principais, são elas:

a)      Teologia Bíblica: trata da base bíblica da teologia.
b)     Teologia Histórica: é o debate teológico sobre diversos temas ao longo da história.
c)      Teologia Sistemática: é a construção de um sistema de ideias básicas dentro da teologia que englobe o conjunto completo da revelação de Deus.
d)     Apologética: proteção da doutrina cristã contra os ataques externos.
e)      Polêmica: proteção da doutrina cristã contra os ataques internos.

Todas essas divisões são importantes e precisam ser desenvolvidas no âmbito das igrejas e seminários. Cada uma possui metodologia própria, porém, a base para todas elas é a Bíblia sagrada como revelação especial de Deus.

Erickson (2015) nos fornece 5 aspectos básicos da teologia cristã:

1.1. É bíblica: ou seja, toda sua base é a Palavra de Deus e não é possível deduzir conceitos teológicos que vão de encontro à revelação especial.
1.2. É sistemática: deve se basear em toda a Bíblia.
1.3. É relacionada com tudo que está a nossa volta.
1.4. É atual: deve fazer conexão com a cultura e o conhecimento do seu tempo, não podendo estar desligada dos grandes questionamentos presentes.
1.5. É prática: não se limita somente a um conjunto de ideias que demandarão apenas reflexões intermináveis sobre a pessoa de Deus. Tão importante quanto o pensar e estudar sobre Deus é o de agir conforme sua revelação. Falaremos mais sobre isso em tópicos posteriores.

2.      Qual a importância do seu estudo?

“É realmente necessário estudar teologia?” Essa pergunta geralmente é feita por aqueles que não entenderam o que, de fato, é teologia. Todos aqueles que professam uma fé são, em última análise, teólogos, pois todos racionalizam sobre quem Deus é, ainda que incorretamente ou inconscientemente. O que leva as pessoas a indagarem sobre a necessidade da teologia é o academicismo extremado que permeia os lábios de muitos ministros e estudiosos que, de tanto buscarem conhecer a respeito de Deus, esqueceram de conhecê-lo e, em suas vaidades, falam um idioma que se distancia muito da realidade na qual a maioria dos crentes estão inseridos.

Ferreira e Myatt (2007) vão afirmar que teologia sempre foi crucial na vida da igreja e que os autores do Novo Testamento foram os primeiros teólogos. Ela foi o instrumento usado por Deus em momentos decisivos da igreja, tais como a Reforma Protestante, onde o rompimento entre dois tipos de teologia foi decisivo na separação do protestantismo do catolicismo, e completa: “viver a vida cristã sem as doutrinas cristãs é como jogar futebol sem a bola: é simplesmente impossível”.

Tendo em vista que a base de toda teologia é a Bíblia e ela consiste em um “comunicado infalível e absolutamente verdadeiro, feito em linguagem humana, que se originou de um Deus infinito, pessoal e moralmente perfeito”[1], concluímos que a reflexão acerca dessa verdade é imprescindível para o povo de Deus e o desprezo por isso pode abrir portas para muitas mentiras dentro da igreja de Cristo.

Mais alguns fatores que tornam o estudo teológico importante:

a)      O próprio Cristo deixou claro que a salvação depende do correto entendimento sobre quem Ele é (João 8.24; Gálatas 1.9).
b)     Ajuda pastores e pregadores na elaboração de sermões que edifiquem a igreja, como uma das ferramentas na tarefa de anunciar “todo desígnio de Deus”.
c)      Aquilo que cremos afeta nosso modo de agir e reagir em nossa realidade.

É lamentável ver denominações inteiras não se preocuparem com a formação de seus membros e, em especial, dos seus obreiros. Certamente esse é um dos pilares da crise que assola a igreja hoje, onde muitos tem visto o estudo sério das escrituras como uma perda de tempo. É sobre isso que falaremos no próximo tópico.

3.      Teologia “esfria” o crente?

Quando nos referimos a esfriamento, no senso comum evangélico, todos associam ao “comodismo espiritual”, ou seja, é o momento na vida do crente em que a verdade do evangelho já não mais “arde” em seu coração e aquela poderosa mensagem que o salvou já não passa de um passado memorável. Não há mais desejo pelo Eterno. Oração e meditação nas Escrituras são hábitos esquecidos.

Por vezes, com certa dose de merecimento, os teólogos são acusados de serem frios na fé. Essa dose de merecimento vem daqueles que, de fato, tornaram a teologia um ídolo, um fim em si mesma, esquecendo-se de que ela é um simples meio para nos levar a um conhecimento mais íntimo com o Criador ou, nas palavras de Ferreira e Myatt (2007): “a teologia DEVE oferecer respostas que levem as pessoas a um relacionamento mais profundo com Deus.”

A razão disso, creio, é uma disposição que há em nosso coração enganoso (Jeremias 17.9) de distorcer e tornar impuro tantas coisas boas que o Senhor nos deixou. A teologia é um método de pensar sobre Deus e isso pode ser feito em conformidade com a própria vontade Dele para nós, ou podemos coloca-la como ídolo em nosso coração. Caso optemos por esse último caminho, nos envaideceremos em nossa “ciência” e passaremos a seguir um alvo diferente, onde nos tornaremos deuses de nós mesmos e nossa teologia será o picadeiro onde atuaremos disfarçados de divindade.

Contudo, o comportamento de alguns teólogos não deve ser projetado sobre todos aqueles que levam a sério o estudo de Deus. A Bíblia como um livro rico e dinâmico leva todo estudioso a duas conclusões óbvias: i) nossa extrema limitação diante de um Deus tão infinito e sábio; ii) a necessidade de nossa eterna gratidão a esse Deus que escolheu revelar-se a essa criação caída e dar uma nova chance de relacionamento com ele. Entendendo corretamente a mensagem bíblica e sendo impactado por essas verdade,s não há espaço para que a teologia possa “esfriar” ninguém, pelo contrário, levará o crente a um relacionamento mais vivo e sincero com o Senhor.

4.      Como estudar Teologia?

Em seu clássico livro de Teologia Sistemática, Erickson (2015) faz uso do modelo de três camadas de Bernard Mayo[2], especialista em ética, que criou esse modelo para descrever diversos aspectos da ética e da moralidade. Segundo ele, tais atividades, em qualquer área, se dividem sempre em três camadas: 1) aqueles que estão engajados na prática; 2) os críticos, são os que avaliam os que estão na primeira camada; e 3) os filósofos, que são os que debatem os critérios avaliados pelos críticos da segunda camada.

Em relação a fé cristã, podemos utilizar abordagem semelhante, onde as camadas se dividem da seguinte forma:

1ª Camada: crentes praticantes, são aqueles cujas ações, em seu todo, se direcionam pelas diretrizes dadas pela fé cristã. Erickson nos lembra que: “a atividade da primeira camada não pode ser realizada efetivamente até que o conhecimento adquirido seja incorporado a própria natureza da pessoa”. Ou seja, cristãos “nominais” não se enquadram aqui e também em nenhuma outra camada.

2ª Camada: são aqueles que fazem reflexões conscientes da doutrina. São os Teólogos (no sentido restrito do termo), pastores, professores de Escolas Bíblicas, etc. É uma tentativa de pensar mais profundamente sobre o significado dessas doutrinas, bem como de correlaciona-las de maneira intencional. O objetivo da segunda camada, aplicada a fé cristã, é o de avaliar se os da primeira camada estão, de fato, agindo dentro da ortodoxia.

3ª Camada: são os teóricos da Teologia. Pensam sobre o sentido e as possibilidades da mesma, buscando refiná-las ou relacioná-las com novos desdobramentos. São homens que ditam modelos e novas tendências metodológicas na teologia.

A partir dessas divisões, Erickson faz a seguinte ressalva: os componentes das duas camadas superiores devem, necessariamente, serem da 1ª camada. Do contrário, corre-se o risco do enclausuramento na “torre de marfim”. Não há problema em estar na 2ª ou 3ª camadas, são componentes importantes na esfera cristã, contudo, o teólogo não pode perder-se em um academicismo distante da realidade dos irmãos mais simples.

Ferreira e Myatt (2007) vão nos colocar isso de forma bem clara: “Aquele que acha que pode ser um teólogo teórico, protegido na academia, distante do povo, está redondamente enganado. Quem não faz teologia tendo em mente as necessidades do povo nos bancos da igreja não é um teólogo cristão de verdade. O fato de que quase todos os teólogos de mais influência na história da igreja também eram pastores.”

Portanto, como devemos estudar teologia? Para resumir esse questionamento, responderemos: com humildade o suficiente para reconhecer que o que sabemos sobre Deus é insignificante frente a quem Ele, de fato, o é. Com gratidão por, ainda assim, poder conhecer essa minúscula revelação Dele mesmo e com a lembrança de que esse pouco conhecimento é um dever que nos é imposto para com nossos irmãos, para servi-los com o que sabemos e ajudá-los em suas necessidades da fé.

5.      Conclusão: um alerta aos estudantes.

Richard Baxter[3], pastor inglês do Século XVII, notando um esfriamento espiritual muito danoso em seus colegas de ministério, lamentou: “não é triste que nosso coração não seja tão ortodoxo quanto nossa mente?”. Estudar a verdade não nos faz, necessariamente, adotá-la como um estilo de vida. Na sincera luta em defesa da verdade alguns esqueceram de manter o fervor. Lembremo-nos do conselho de Spurgeon[4] aos seus alunos: “não somos passivos transmissores de infalibilidade. Somos sinceros instruidores de coisas que aprendemos, na medida em que podemos captá-las”. Ou nas palavras de Thielicke (2014): “qualquer pessoa que deixe de ser espiritual estará automaticamente desenvolvendo uma teologia falsa, mesmo que seu pensamento seja puro, ortodoxo e afinado com sua tradição confessional. Nesse caso, a morte está à espreita’. A teologia pode ser uma fria camisa de ferro que nos aprisiona e sufoca até a morte.”

Assim, que possamos abandonar todo nosso sentimento de superioridade e transformá-lo em gratidão por receber a graça de conhecer um pouco mais, e não somente isso, mas usar todo nosso vigor para ensinar essa verdade aos irmãos menos instruídos. Que a verdade e o amor possam andar de mãos dadas!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Ferreira, Franklin; Myatt, Alan. TEOLOGIA SISTEMÁTICA: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.
Erickson, J. Millard. TEOLOGIA SISTEMÁTICA. São Paulo: Vida Nova, 2015.
Geisler, Norman. TEOLOGIS SISTEMÁTICA: volume 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
Thielicke, Hemut. RECOMENDAÇÕES AOS JOVENS TEÓLOGOS E PASTORES. São Paulo: Vida Nova, 2014.



[1] Geisler, 2010.
[2] MAYO, Bernard. Ethics and the moral life. London: Macmillan, 1958.
[3] Richard Baxter, MANUAL PASTORAL DE DISCIPULADO. Editora Cultura Cristã, 2015.
[4] Charles Spurgeon, LIÇÕES AOS MEUS ALUNOS – Volume 1.  Publicações Evangélicas Selecionadas, 2014.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O Evangelho é prático, não pragmático



Se você já ouviu a máxima “os fins justificam os meios”, então você conhece o pragmatismo. Essa teoria é um braço do pós-modernismo[1] e afirma que a verdade das proposições é demostrada pelos seus efeitos práticos. Portanto, algo é adotável ou não como ação e/ou comportamento se tiver efeitos práticos. Um exemplo absurdo: acabar com a pobreza exterminando todos os pobres. É uma medida pragmática ao extremo, pois resolveria o problema eficazmente, mas é impraticável por inúmeros princípios adotados pelos Estados contemporâneos.

O Evangelho NÃO É PRAGMÁTICO, ou seja, ele não propõe caminhos curtos cujo fim levarão, necessariamente, a meta desejável. Entenda: a meta do evangelho é nos reconciliar com Deus por meio da cruz de Cristo e, após alcançados, levarmos essa mesma mensagem a todo o mundo. Não há caminhos pragmáticos para isso. Nem o próprio Cristo sugeriu essa ideia (Lucas 9.23). Por vezes, o caminho para alcançarmos a “meta de Deus” é espinhoso e, se dependesse da nossa vontade, seria certamente encurtado. Porém, a ideia de Deus não diz respeito somente a alcança a meta, mas nos transformar à medida que caminhamos para ela. Assim, no projeto de Deus, o fim e o meio são igualmente importantes.

Contudo, não devemos confundir: o Evangelho É PRÁTICO. Ou seja, não há espaço pra “teoricismo” no meio cristão. A verdade de Deus, obrigatoriamente, atinge o centro prático da vida do crente, bem como da comunidade em que ele está inserido. Nos tempos de graduação, alguns professores faziam piadas com outros chamando-os de “economistas de gabinete”, que eram aqueles que trabalhavam intensamente com os dados obtidos em órgãos e repartições públicas e nunca se davam ao trabalho de fazer pesquisas de campo e observar a realidade econômica do povo. Pois bem, não existem “cristãos de gabinete”. Todo cristão é chamado a prática da verdade que professa, seja no seu relacionamento com Deus, com o próximo e consigo mesmo.

Portanto, o evangelho é PRÁTICO, mas não PRAGMÁTICO. Essa distinção é importante para modelarmos corretamente nossa visão de mundo. Não devemos criar expectativas sobre caminhos fáceis que Deus tem preparado para nós. Ou, como um teólogo[2] muito querido diz: “Deus não nos prometeu uma jornada segura, mas uma chegada certa!”


Em Cristo,


Thiago Holanda - 31 de Agosto de 2017.




[1] Em breve publicarei um estudo básico sobre esse tema.
[2] Augustus Nicodemus.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O que é a Ceia do Senhor?




Observação: O presente texto foi desenvolvido para ser um mini-curso intensivo para candidatos ao batismo em minha denominação, por isso possui um formato diferenciado dos demais textos do blog.

    A segunda ordenança simbólica que Cristo deixou a sua igreja é a Santa Ceia, que costuma ser considerada pelos crentes como um momento muito solene na vida da igreja. Sua ordenação é encontrada em três evangelhos: Mateus 26.26-29; Marcos 14.22-25 e Lucas 22.19-20. Contudo, a referência mais utilizada para o momento da celebração é o trecho que Paulo escreve em 1 Coríntios 11.23-36. Trata-se de um momento de autoexame e manifestação de gratidão à obra de Cristo. Sobre a emoção em participar da ceia do Senhor, R.C Sproul testemunha: “Quanto mais velho fico, e quanto mais progrido na fé, mais importante esta ordenança se torna para mim. Se há algum lugar em que experimento a comunhão doce de minha alma com Cristo, este lugar é a mesa do Senhor. Sob um aspecto, a experiência da ceia do Senhor vem se tornando uma fonte de embaraço para mim. Frequentemente sou obrigado a cobrir meus olhos com as mãos enquanto comungo, a fim de esconder as lágrimas que não consigo conter. De fato, a doçura de tal comunhão às vezes ultrapassa meus limites, à medida que a exuberância da presença de Cristo inunda a minha alma”.

    Mas, o que é a Ceia? É um rito instituído pelo próprio Cristo para celebração da sua morte! Pode parecer estranho a quem não conhece a Palavra de Deus a ideia de celebrar a morte de alguém. Contudo, o sacrifício de Cristo deve ser entendido pelo crente como um momento de alegria e libertação.

ASPECTOS DA CEIA

DEVE SER CELEBRADA CONTINUAMENTE (1 Co 11.24,25): diferentemente do Batismo, a Ceia é uma ordenança a ser repetida sempre. As expressões “fazei isso em memória de mim” ou “todas as vezes que beberdes” dão a ideia de que o rito deve ser praticado continuamente pela igreja. Com que frequência? A Bíblia não menciona a frequência da realização e existem, inclusive, igrejas que a realizam todo domingo, mas quase todas as denominações fazem mensalmente. Cabe ao bom senso. Nesse sentido, vale a observação de Millard Erickson: “A frequência não pode ser muito demorada, para que não haja um lapso entre um período e outro e tão curta que se torne trivial”.

É UMA FORMA DE PROCLAMAÇÃO (1 Co 11.26): a Ceia é uma dramatização do evangelho, ou seja, uma exibição vivida do que a morte de Cristo realizou: “anunciais a morte do Senhor”.

A PARTICIPAÇÃO INDIGNA (1 Co 11.27): todos os relatos bíblicos da Ceia mostram que a mesma foi ministrada, exclusivamente, aos convertidos. Paulo realça essa ideia no verso 27, ao dizer que participar da Ceia indignamente faz a pessoa se tornar culpada do corpo e do sangue do Senhor. Além disso, no verso 28, Paulo exige que todos façam um autoexame a fim de avaliarem sua vida com Deus, e tal prática não existe na vida de não regenerados. Portanto, participar da Ceia NÃO gera graça salvífica no coração do pecador.

DEVE SER REALIZADA EM COMUNHÃO (1 Co 11.29-33): a Ceia não é uma disciplina espiritual individual como meditação e oração, mas uma ordenança para a IGREJA, ou seja, um rito a ser exercido no ajuntamento solene dos santos. A igreja de Corinto era muito dividida e, por isso, os crentes que eram de “grupos” diferentes se adiantavam e não esperavam para cearem juntos. Ou seja, estavam participando do rito de maneira superficial. Paulo exorta que precisamos “discernir (entender, conhecer) o corpo”, ou seja, temos de estar em plena comunhão com os irmãos e entender que vivemos como uma comunidade eleita de Deus. Se isso não for uma realidade na igreja, haverão “muitos fracos e doentes e muitos que dormem”. Assim, devemos “esperar uns pelos outros” como um sinal de unidade cristã.

DEVE SER CELEBRADA POR UM MINISTRO ORDENADO: apesar de não existirem recomendações diretas sobre desse ponto, entende-se que, pelo fato de ser uma ordenança própria da igreja, os líderes da mesma é que devem presidir o rito, tendo a figura do pastor como líder principal, sendo auxiliado por outros líderes reconhecidos pela congregação.

CONCLUSÃO:

    Portanto, a Ceia do Senhor é um tempo em que somos atraídos para mais perto de Cristo, trazendo a nossa memória o maravilhoso sacrifício realizado em nosso favor. Gratidão deve rechear toda a celebração. Por isso, participar da Ceia traz inúmeros benefícios espirituais para o cristão e o faz lembrar da sua identidade como filho de Deus. Negligenciar a importância dessa ordenança acarretará, inevitavelmente, num coração endurecido e insensível ao Espírito Santo.

    Para finalizar, vale ressaltar que Batismo e Ceia estão intimamente conectados, pois esta última só é ministrada aos verdadeiramente convertidos e que já simbolizaram seu novo nascimento por meio do Batismo. A fim de fazer uma comparação entre essas duas ordenanças, Franklin Ferreira nos dá o seguinte quadro:



Em Cristo,
Thiago Holanda - 28/08/2017

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O que é o Batismo nas Águas?



Observação: O presente texto foi desenvolvido para ser um mini-curso intensivo para candidatos ao batismo em minha denominação, por isso possui um formato diferenciado dos demais textos do blog.

INTRODUÇÃO

Ao ser levado aos céus, o Senhor Jesus nos deixou algumas ordenanças importantes, que devem ser cumpridas tanto pelo cristão (individualmente), como por toda a igreja.
Dentre essas ordenanças, considera-se de grande importância o Batismo nas Águas e a Ceia do Senhor, que são as duas ordenanças aceitas pela igreja evangélica em todo o mundo. A tradição católica romana trabalha com o conceito de sacramentos[1] e, além destes dois, também instituiu outros cinco[2], mas que não possuem base na Palavra de Deus.

O QUE É O BATISMO?

A principal ordem para o batismo está contida na Grande Comissão (Mt 28.19) e todos concordam que esse sacramento está conectado com o começo da vida cristã. O próprio Cristo experimentou o batismo nas águas, por ocasião do seu encontro com João, o batista (Mt 3.13-17), que proclamava o descer as águas como sinal de arrependimento pelos pecados e como a vinda do Reino de Deus. Sobre esse episódio importante na vida de Cristo, Franklin Ferreira[3] nos diz: “Jesus foi batizado por João para inaugurar a vinda da nova criação, para se identificar com o povo que viera livrar do pecado (Mt 3.15) e como consagração pública ao Pai para seu trabalho de salvação (Mt 3.17), fazendo de João o seu precursor, ordenado por Deus (Lc 7.24; Ml 3.1)”

TEXTOS BÍBLICOS DE SUPORTE

UMA REPRESENTAÇÃO PÚBLICA DA FÉ CONFESSADA: 1 Pedro 3:21 - Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo;”
F Esse versículo nos ensina que o Batismo é um símbolo, e que não tem efeito no ‘despojamento da imundícia da carne’, mas que é uma ‘figura’ do que acontece internamente na vida do crente. Para facilitar a sua compreensão, veja o mesmo versículo traduzido pela Nova Bíblia Viva: “Isso, aliás, é o que o Batismo retrata para nós: No batismo mostramos que fomos salvos da morte e da condenação pela ressurreição de Cristo, não porque nossos corpos são purificados pela lavagem com água, mas porque, ao ser batizados, estamos nos voltando para Deus e pedindo que ele purifique nossos corações do pecado.” Ou seja, somos batizados PORQUE fomos perdoados, e não PARA sermos perdoados. Isso é posto, também, em Atos 2.38, quando Pedro diz que, primeiro, devemos nos “arrepender” e cada um ser batizado.

BATISMO E NOVO NASCIMENTO: João 3:5 – “Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.”
- ‘nascer da água’ tem conotação de purificação. Esse verso NÃO significa que o batismo tem poder de purificar a pessoa, pois entraria em contradição com a passagem explicada no item 3.1. O que Jesus está dizendo é que a água, no batismo, simboliza a purificação dos pecados JÁ EFETUADA na vida do crente, de forma que somente por meio dessa purificação é que a salvação se efetua.

BATISMO E ANTIGA ALIANÇA: Colossenses 2:11,12 – “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.”
- Encontramos aqui uma clara ligação entre circuncisão (Antiga Aliança) e o Batismo (Nova Aliança). Paulo está fazendo referência ao novo símbolo, instituído por Deus, para demonstrar o pacto com seu povo. Veja que o apóstolo usa a expressão “sepultados com ele”, ou seja, batismo simboliza a morte do crente para si mesmo e o começo de sua vida com Cristo. Ideia semelhante é mostrada em Romano 6.4: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.” Portanto, ao descermos as águas estamos mostrando uma forte associação com Cristo, tanto na morte, como na ressurreição.

O TEMPO DE FÉ É REQUISITO PARA O BATISMO?: Atos 8:36,37 - E, indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.
-  Não existe um tempo fixado para o crente se batizar. Note que o versículo acima narra o batismo de um eunuco logo após sua conversão. Contudo, vale observar que, diante de um contexto em que muitos entram na igreja sem a verdadeira conversão, é recomendável que a liderança da igreja institua ou sugira um tempo de observação entre a possível conversão e o batismo. Além disso, vale salientar que a passagem de Atos nos dá o critério mais importante para uma pessoa que deseja o batismo: crer em Cristo de todo coração. É por esse motivo que não se devem batizar crianças recém-nascidas, como é prática comum de algumas igrejas.

Coríntios 15:29 - Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?
- Quase ao norte de Corinto havia uma cidade chamada Eleusis. Este era o local onde os seguidores de uma religião pagã praticavam o batismo no mar a fim de garantir uma boa vida após a morte. Acredita-se que, essa prática tenha se infiltrado na igreja da cidade. Ou seja, na tentativa de salvar parentes que morreram sem Cristo, os crentes faziam batismo por procuração, ou seja, batizavam alguém em vida para salvar alguém morto. Evidentemente, esse costume não possui suporte nas escrituras.[4]

O QUE NÃO É BATISMO!

Não é a salvação/regeneração: o crente não é salvo no momento do batismo, mas antes dele. Como visto, o batismo é um símbolo de uma salvação efetuada anteriormente. Portanto, não pode ser imposto a outra pessoa como forma de compromisso religioso obrigatório, mas deve ser um ato de fé voluntário.

Não é revestimento de poder: por ser um símbolo, não possui poder algum por si só, mas o Espírito Santo, que já habita no crente salvo, é quem opera poderosamente na vida dos filhos de Deus. Batizar-se para ficar espiritualmente fortalecido é um erro comum de muitos cristãos.

Não é opcional: O batismo não é determinante para a salvação de uma pessoa. O ladrão ao lado de Cristo na cruz (Lucas 23.39-40) não foi batizado e Jesus o salvou. Contudo, havendo condições e tempo hábil para o batismo, o cristão deve se batizar.

Para reflexão: Batismo é o chamado e a entrada no discipulado. Não é a oferta do ser humano, mas uma oferta de Jesus Cristo. (Dietrich Bonhoeffer)




[1] No site católico Canção Nova, sacramento significa: “Sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é dispensada a vida divina. Os ritos    Ou seja, segundo o conceito católico, o batismo, bem como os demais sacramentos, tem poder de operação por si só.

[2] São eles: confirmação, penitência, ordenação, matrimônio e a extrema-unção.

[3] Franklin Ferreira. Teologia Sistemática. Vida Nova, 2014.
[4] Vale lembrar que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Mórmons) ainda adota a prática de batismo pelos mortos!

domingo, 13 de agosto de 2017

Ryan, faça por merecer...




AVISO: esse texto contém spoilers do filme.

Ontem assisti novamente ao clássico “O resgate do soldado Ryan”, dirigido por Steven Spielberg e com atuação perfeita de Tom Hanks. O filme narra a jornada de uma equipe de militares liderada pelo Capitão John (Tom Hanks) que precisa entrar numa região extremamente hostil da França durante a Segunda Guerra Mundial para resgatar um único soldado: Ryan. Motivo? Seus outros 3 irmãos já haviam morrido na guerra e o governo americano concede, em favor de sua mãe, o benefício de ter seu único filho de volta. Ao ser achado pela equipe Ryan se recusa a retornar, por conta do seu dever para com o país e a necessidade de proteger uma ponte do domínio alemão iminente, pois a mesma era muito estratégica para o avanço nazista. Mesmo revoltados com a decisão de Ryan, os soldados da equipe decidem que o certo a se fazer é ficar no local e ajuda-lo na tarefa. Pulando para o final do filme, encontramos uma cena muito emocionante: encurralados pelos inimigos, John, Ryan e poucos sobreviventes se veem nos últimos momentos de vida quando, de repente, são salvos pela Força Aérea dos aliados. Contudo, infelizmente, capitão John não resiste a um ferimento e morre. Suas últimas palavras para Ryan, após o sacrifício de quase toda a equipe e de si mesmo em prol do rapaz, foi: “Faça por merecer...”

Foi um pedido forte. A vida de inúmeros homens foi sacrificada em prol de um só. Ryan tinha que viver uma vida extremamente significativa para “compensar” tamanho sacrifício. Mas fiquei pensando: “Cristo teria dito o mesmo para nós?”. Afinal, ele se sacrificou, não é mesmo? A morte dele foi capaz de nos salvar e precisamos lembrar disso. Contudo, creio que ele jamais diria isso, sabe porquê? Porque seria uma tarefa IMPOSSÍVEL. Jamais conseguiríamos “fazer por merecer” o sacrifício Daquele que foi tão puro e perfeito aqui na Terra. Seu sacrifício foi diferente do que vimos no filme porque foi o sacrifício perfeito, de alguém que não merecia morrer por vários que mereciam. Paulo enfatiza isso em Romanos 5.8, quando diz: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.” Ainda que vivamos intensamente e busquemos como propósito supremo viver em prol dos outros, essa vida jamais faria por merecer a morte do Primogênito de Deus.

Porém, não é por isso que devemos viver de qualquer forma. Ainda que jamais mereçamos esse presente, precisamos viver “integralmente entregues” a vontade daquele que nos retirou da lama do pecado e nos conduziu a uma vida única de esperança.

Paul Washer conta que uma vez estava pregando no auditório de uma universidade e um jovem se levantou e perguntou:

- Como o sacrifício de um homem só, durante poucas horas, foi capaz de salvar todo o resto da humanidade? Isso não parece justo.

Paul Washer responde:

- É porque esse homem vale mais do que todos os outros juntos. Se você pega as montanhas, montes, todo o planeta, todas as estrelas, toda forma de beleza, tudo aquilo que canta, tudo aquilo que resplandece, e coloca tudo isso em uma balança, CRISTO CONTIUARÁ SENDO MAIS VALIOSO.

Que eu e você nos lembremos continuamente do sacrifício de Jesus. Não para tentar viver de modo a merecer tal benefício, pois seria impossível, mas para ser grato ao Deus cujo amor nos constrange (2 Co 5.14)


Em Cristo,



Thiago Holanda.

p.s: Para assistir a história de Paul Washer contada por ele mesmo, clique na imagem abaixo. Vale a pena, pois é emocionante.

domingo, 6 de agosto de 2017

“Um espaço entre nós” e uma vida significativa.



Hoje assisti um filme de romance bem adolescente intitulado “O espaço entre nós”. Narra a história de um rapaz que nasceu em Marte. Sua mãe foi uma astronauta renomada que morreu durante seu parto. Por conta de uma série de problemas de saúde, ele ficou impossibilitado de morar na terra e foi criado por outros astronautas na estação espacial. Contudo, aos 16 anos ele sentiu uma profunda necessidade de conhecer a Terra e procurar seu pai. Vou parar por aqui para não dar spoilers. Confesso que é um filme tosquinho, cheio de um romance meio ‘piegas’ e cenas de amor bem previsíveis.
Contudo, o filme nos faz refletir no significado da nossa vida aqui na terra. Uma cena em especial me chamou muita atenção: o rapaz está se trocando no banheiro de um supermercado e, ao sair da cabine, se depara com várias crianças que estavam prestes a “pichar” o espelho do banheiro. Ao verem que não estavam sozinhas, as crianças fugiram. Ele, meio bobalhão ainda, não entende o porquê da fuga e pega o pincel, olha para o espelho e então escreve: “Eu estive aqui.” Confesso que passei um bom tempo meditando nisso, e me perguntei: será que minha vida aqui na terra está sendo suficientemente significativa? Será que tenho deixado uma marca positiva durante minha brevíssima jornada por aqui?
Me espanta ver tantos jogando no lixo seu precioso tempo de permanência aqui na terra com coisas tão sem significado. O personagem do filme, desde o início, sabia que seu destino final não era a terra. Por motivos de saúde, ele sabia que teria de voltar pra Marte ou, então, morreria muito brevemente por aqui. Isso o impulsionou a viver essa curta estadia dando o melhor de si em tudo e deixando sua marca aonde ele pudesse. Isso foi a sua motivação ao escrever no espelho: “eu estive aqui”. Era uma marca simples, mas era uma marca. Aquele espelho do banheiro não ia ser mais o mesmo depois da passagem dele. O que eu e você temos modificado? Vamos viver 70, 80 ou Deus sabe quantos anos e não deixaremos nossa marca em nada? Não modificaremos a vida de ninguém por aqui?
Não sei você, mas eu quero uma vida de significado. Sei que sou um peregrino, assim como o personagem, e brevemente terei de voltar ao lar. Mas vou encarar essa minha breve passagem como um presente precioso e quero aproveitar cada segundo dela e deixar, não em espelhos, mas no coração daqueles que amo uma marca com os mesmo dizeres: “eu estive aqui”.

Em Cristo,
Thiago Holanda.

sábado, 5 de agosto de 2017

Nós precisamos pagar algum preço?




Você já deve ter ouvido o seguinte jargão evangélico: “irmão(ã), você precisa pagar o preço!”. O que isso significa? Na maioria das vezes, o que o que está sendo dito é algo do tipo “santifique-se”, “busque mais a Deus”, “faça mais consagrações (jejum, oração, etc) ao Senhor” ou algo parecido. Inclusive, recentemente, a cantora gospel Damares (foto) lançou a música ‘Alto Preço’ (mais uma no rol de suas muitas heresias musicais), que diz: “eu tô pagando, eu tô pagando, o preço pra morar no céu eu tô pagando...”.
Minha pergunta é: é errado dizer que devemos pagar o preço no sentido espiritual? Bem, a resposta é sim e não. Deixe-me explicar: conhecendo o conceito de graça e suas aplicações na vida do crente, não pagamos preço algum por nada. É nisso que o jargão, a meu ver, se torna muito perigoso, afinal, pode passar a falsa ideia (já bem sedimentada na mente de irmãos imaturos) de que há algum mérito nosso em fazer algo para Deus e, assim, correrem o risco de esquecer que não passamos de servos inúteis (Lucas 17.10).
Contudo, o jargão não é completamente errado. E para me ajudar nessa argumentação quero tratar do conceito de ‘graça preciosa’, trabalhado por Dietrich Bonhoeffer[1] (foto) em seu livro “Discipulado”. Na visão do autor, há dois ‘tipos’ de graça, a barata e a preciosa. A primeira é a “inimiga mortal da nossa igreja”, é a graça sem custo, é uma graça que encontra fácil cobertura para seus pecados dos quais o crente não tem remorso e não deseja verdadeiramente libertar-se. Ela “justifica o pecado, mas não o pecador”. Portanto, o lema desse tipo de graça, nas palavras de Bonhoeffer, é: “Viva, pois, o crente como vive o mundo, coloque-se, em tudo, em pé de igualdade com o mundo, e não se atreva – sob pena de ser acusado de heresia entusiasta! -  a ter, sob a graça, uma vida diferente da que tinha sob o pecado!”
Em contraste, a graça preciosa é o tesouro oculto no campo. Ela é o “evangelho que se deve procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta a qual se tem que bater”. Ela condena o pecado, e justifica o pecador. Para Bonhoeffer, essa graça é preciosa “por ter sido preciosa para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu filho – ‘vocês foram comprados por preço’ – e porque não pode ser barato para nós aquilo que custou caro para Deus. A graça é preciosa sobretudo porque Deus não achou que seu Filho fosse preço demasiado caro para pagar pela nossa vida, antes o deu por nós.”
Existe sim uma dimensão da vida do crente onde a graça requer de nós um esforço sem igual. Há um preço a ser pago por ser cristão, não PARA SER cristão. O chamado de Deus é para, depois de salvos, vivermos como Jesus viveu e se ele pagou um alto preço, também precisaremos pagar. Me admira o comodismo de certos cristãos que permitiram que a graça se tornasse algo tão ordinário em suas vidas. Já não há mais cruz na vida de alguns. Me impressiono com a falta de fervor e vontade de viver uma vida extraordinariamente entregue nas mãos do Pai. O custo do discipulado é difícil, mas sobremodo precioso.
Minha oração é para que eu e você mantenhamos a graça preciosa ardendo em nossos corações. O discipulado de Jesus é um convite a vida e a morte. Viveremos sim, mas antes morreremos.
Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. (Lucas 9:23)
Em Cristo,
Thiago Holanda.



[1] Pastor luterano que foi martirizado por Hitler durante a 2ª Guerra Mundial.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Quem eram os Fariseus?







Muito se ouve sobre os Fariseus. Certamente é um grupo de destaque em todo o Novo Testamento, mas não carregam uma boa reputação. Vemos, quase sempre, um conflito intenso entre o Salvador e esse grupo tão religioso e legalista, mas pouco se sabe sobre detalhes relativos à origem, organização e atuação política do grupo. Esse texto tem como objetivo trazer algumas informações importantes para a melhor compreensão da história desse grupo, bem como trazer luz sobre como eles se relacionam com as verdades expressas no NT.
As fontes de informações são reduzidas. Somente três documentos trazem maiores informações: a Mishná[1], o Novo Testamento e obras de Flavio Josefo. Este último foi um historiador judeu que viveu no primeiro século e apresentava-se como fariseu. De acordo com Josefo, os fariseus já figuravam em Israel por volta de 145 a.C, já outros historiadores apontam como herdeiro dos “hasidins”(significa “leais a Deus”). Estes, por sua vez, foram sucessores da obra de Esdras e ao longo dos anos ofereceram forte resistência a paganização da religião judaica, especialmente quanto a sua helenização. (Tognini, 2009)
Brown e Coenen (1998) dizem que, apesar de se saber que “fariseu” significar “separado”, não se pode ter certeza quando a origem desse termo, apontando, então, três teorias bem comuns:
a)      Descendência dos hasidins que, no passado, foram aliados dos Macabeus, contudo, depois, foram ‘separados’.
b)      Descendência dos confederados. Um grupo que, em 135 a.C, se separou do restante do povo que não guardava a lei.
c)      Jogo de palavras judaicas que, misturadas, traduzia-se por “separação”.
Não se pode considerá-los um partido político, apesar da imensa força política que conquistariam ao longo dos anos. Abdicaram do uso da violência no período dos hasmoneus e ganharam muita popularidade entre a classe mais humilde (enquanto seus rivais, os saduceus, conquistaram a amizade da classe mais rica). Vários homens da classe média baixa faziam parte desse grupo, identificado especialmente, pelas crenças comuns e o zelo religioso. Eram organizados e possuíam uma hierarquia específica. Daniel-Rops (2008) diz que “a organização deles pode ser perfeitamente comparada com a de um partido político moderno num estado democrático de direito”.

Crenças

Eram considerados “liberais” no relacionamento com a Lei, pois consideravam como lei de Deus tanto a Torá como a tradição oral e os ensinamentos dos mestres. Acreditavam que a Lei se formava ao longo do tempo, ganhando novas interpretações de novos mestres. Daniel-Rops (2008) salienta que eles têm sido chamados de “tradicionalistas”, mas essa designação só faz sentido se a palavra tradição for entendida como lei oral.
Gostavam de observar os detalhes da Lei. A “Halacá” (corpo de decisões jurídicas que interpretava a Torá) era considerada tão obrigatória quanto à própria lei. Praticamente todas as áreas da vida humana eram reguladas por aplicações da Lei. Em Atos 1.12, por exemplo, fala sobre a “jornada de um sábado”, isso remonta a uma aplicação farisaica que estabelecia que um judeu não poderia andar, num sábado, mais do que mil passos. Caso o fizesse, estaria violando a lei. Possuíam 613 mandamentos, sendo 248 negativos e 365 positivos. Valorizavam mais as tradições acrescentadas a lei do que os princípios divinos vinculados a ela. (Tognini, 2009)
As principais doutrinas dos fariseus eram:

1. Livre-arbítrio do homem, assim criado por Deus.
2. A alma é imortal. Após a existência terrena, continua vivendo e nunca morre.
3. A ressurreição do corpo (At 23.8).
4. A existência de anjos (At 23.8).
5. Todas as coisas são dirigidas pela providência divina. 6. No mundo além, os justos serão recompensados e os maus castigados.
7. Os maus serão presos em cadeias eternas, enquanto os justos desfrutarão a vida eterna.
8. Além da alma humana, existem outros espíritos: bons e maus.

Com o passar dos anos e o crescimento do grupo, divisões foram surgindo e escolas com pensamente divergente foram criando forma dentro do movimento. As mais significativas foram as escolas de Hillel e Shammai. Esta última tinha uma visão mais estrita e detalhada da lei, já a primeira era bem mais ampliada e flexível na aplicação. Conta-se que, certa vez, um judeu pediu que Hillel explicasse toda a lei enquanto conseguisse ficar e pé numa única perna, ao que o mestre respondeu: “o que é desagradável para ti não faças a teu próximo: esta é toda a lei. O resto é comentário.”

Jesus e os Fariseus

É sabido por todos que os Fariseus foram os maiores opositores de Jesus ao longo do seu ministério terreno (Mc 3.6; 12.13; Mt 12.14; Jo 3.1). Em várias situações eles testavam ou provocavam o mestre para “apanhá-lo em algum erro”, sempre sem sucesso. Cristo, de igual modo, não poupou críticas ao grupo, chamando-os de hipócritas, raça de víboras, dentre outros adjetivos negativos.
Contudo, David Cloud[2] nos lembra que é importante notar que Jesus Cristo NÃO repreendeu os fariseus por seu zelo em obedecer os detalhes da lei (Mt 23:23). Porém, Ele os repreendeu:
(1) por suplantar a Palavra de Deus com tradições feitas por homens e assim tornar sem efeito a Palavra de Deus (Mt 15:1-9);
(2) por rejeitar a Jesus Cristo (Mt 12:22-24);
(3) por perverter o Evangelho (Mt 23:15);
(4) considerarem-se como se fossem justos e perfeitos (Lc 18:9-14); e
(5) por pesada hipocrisia (Mt 23:23); Mc 12:15; Lc 12:1).
Além disso, a Bíblia mostra que Cristo manteve contato com alguns do grupo e, inclusive, aceitou convite para comer com eles (Lc 7.36; 11.37). A relação tensa se deu pelo fato de o grupo era, em quase sua totalidade, cheio de orgulho e havia distorcido os princípios da lei e fez da mesma um fim por si só.
No Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (ver referências) encontramos uma citação interessante, vejamos:
“Para os fariseus, Deus é primariamente Aquele que faz exigências; para Jesus, Ele é gracioso e compassivo. Naturalmente, o fariseu não negava a bondade e o amor de Deus, mas para ele, estes se expressavam na dádiva da Torá e na possibilidade de se cumprir aquilo que ali se exige (...). A tragédia era que os fariseus buscavam a Deus de um modo sincero, mas, por causa de um certo conceito particular de Deus ter se endurecido na tradição deles, fizeram sua decisão contra Jesus.”
Precisamos, portanto, entender que há atitudes desse grupo que são bastante positivas, a despeito das críticas, e que seu fervor religioso foi algo que moldou o caráter judaico ao longo dos séculos e ainda influencia muito alguns grupos mais ortodoxos hoje. Sobre isso, Russel (2007) diz: “os fariseus criaram um espírito de verdadeira piedade e devoção que afetou profundamente as vidas das pessoas, e desenvolve­ram um individualismo religioso que deu uma nova relevância à Torah de Deus." Assim, o evangelicalismo pode aprender sim com o farisaísmo, tanto com seus exemplos positivos, como com os negativos.


Referências Bibliográficas

ALMEIDA JÚNIOR, João L. Os Grupos Religiosos Hebreus Surgidos no Período Pós-Macabaico relatados no Novo Testamento: o dia-dia dos Fariseus, Saduceus, Zelotes e Herodianos. Monografia. Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Rio de Janeiro, 2008.
BROWN, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento – volume 1. 1ª Edição. Vida Nova, 1998.
DANIEL-ROPS, Henri. A vida diária nos tempos de Jesus. 3ª Edição. Vida Nova. Aão Paulo, 2008.
RUSSEL, David S. Entre o Antigo e o Novo Testamentos: o período interbíblico. 2ª Edição. Abba Press, 2007.
TOGNINI, Enéas. O período interbíblico: 400 anos de silêncio profético. 1ª Edição. Editora Hagnos. São Paulo, 2009.



[1] Obra judaica contendo uma compilação da tradição oral.
[2] CLOUD, David. Esses Fariseus Fundamentalistas. Disponível em: http://solascriptura-tt.org/SeparacaoEclesiastFundament/EssesFariseusFundamentalistas-DCloud.htm. Acesso em 10 de Julho de 2017.