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terça-feira, 12 de setembro de 2017
1. O que é teologia?
Ao
longo da história da igreja, a teologia, bem como os teólogos, tem sido vista
ora como heroína, ora como vilã. Sim, a teologia é um travesseiro onde um lado foi
bem lavado e o outro está com cheiro de mofo, podendo deixar bem doente aquele
que nela repousar. Mas o que é realmente a teologia? Uma ciência? Arte?
Profissão? Vocação? Curso superior? É benéfica ou maléfica para a igreja? Para
responder satisfatoriamente tantas perguntas deve-se, em primeiro lugar, traçar
uma correta definição do que venha a ser teologia.
Geisler
(2010) definirá teologia como “o discurso racional a respeito de Deus” e
acrescentará que a teologia dita evangélica é o “discurso a respeito de Deus
que enfatiza a existência de certas crenças cristãs essenciais, que incluem a,
mas não se limitam à, infalibilidade e inerrância da Bíblia somente, a
tri-unidade de Deus, o nascimento virginal de Cristo, a divindade de Cristo, a
total suficiência do sacrifício expiatório de Cristo pelos pecados, a
ressurreição física e miraculosa de Cristo, a necessidade da salvação somente
pela fé – somente através da graça de Deus, baseada somente na obra de Cristo
-, o retorno corporal físico de Cristo a este mundo, a felicidade eterna e
consciente dos salvos, e o castigo eterno e consciente dos não-salvos.”
Já
Ferreira e Myatt (2007) vão conceituar como “a ciência que extrai o
conhecimento de Deus e de sua revelação, que estuda e pensa sobre ela sob a
orientação do Espírito Santo e então, tenta desenvolvê-la de forma a honrar a
Deus.” O autor também diferencia os conceitos de teologia e religião, afirmando
que esta última é uma pesquisa sobre todas as religiões e seitas mundiais que
usa de várias ferramentas metodológicas, tais como sociologia, antropologia,
entre outras. Já a teologia é mais especializada, por tratar das doutrinas e
temas de uma religião específica.
Erickson
(2015) vai iniciar sua definição lembrando que o ser humano é
“incorrigivelmente” religioso e, portanto, sempre estabelecerá contatos entre
ele e o divino e, nesse contexto, a teologia é “o estudo ou a ciência de Deus”,
ou: “é a disciplina que procura afirmar, de modo coerente, as doutrinas da fé
cristã, fundamentada principalmente nas Escrituras, situada no contexto da
cultura em geral, verbalizada numa linguagem atual e relacionada com questões
da vida”. O autor também considera importante diferenciar teologia e religião,
afirmando que a primeira está para a última assim como a psicologia está para
as relações humanas.
O
que há de comum nas três definições? Primeiro, todos os autores buscam dar um
conceito amplo de teologia como ciência que estuda o divino e, nesse contexto,
toda religião tem sua teologia própria, mas também nos fornecem o conceito
restrito, que é o conceito de teologia evangélica. Portanto, devemos ter em
mente que teologia não é restrita ao cristianismo e sua vasta amplitude nos
motiva a caracterizar sobre qual tipo de teologia estamos considerando. Vale
ressaltar que dentro do próprio cristianismo encontramos diversas
“sub-teologias” que carregam inúmeras diferenças conceituais.
A
teologia cristã tem 5 divisões principais, são elas:
a) Teologia
Bíblica: trata da base bíblica da teologia.
b) Teologia
Histórica: é o debate teológico sobre diversos temas ao longo da história.
c) Teologia
Sistemática: é a construção de um sistema de ideias básicas dentro da teologia
que englobe o conjunto completo da revelação de Deus.
d) Apologética:
proteção da doutrina cristã contra os ataques externos.
e) Polêmica:
proteção da doutrina cristã contra os ataques internos.
Todas essas divisões são importantes e precisam ser
desenvolvidas no âmbito das igrejas e seminários. Cada uma possui metodologia
própria, porém, a base para todas elas é a Bíblia sagrada como revelação
especial de Deus.
Erickson (2015) nos fornece 5 aspectos básicos da
teologia cristã:
1.1. É
bíblica: ou seja, toda sua base é a Palavra de Deus e não é possível deduzir
conceitos teológicos que vão de encontro à revelação especial.
1.2. É
sistemática: deve se basear em toda a Bíblia.
1.3. É
relacionada com tudo que está a nossa volta.
1.4. É
atual: deve fazer conexão com a cultura e o conhecimento do seu tempo, não
podendo estar desligada dos grandes questionamentos presentes.
1.5. É
prática: não se limita somente a um conjunto de ideias que demandarão apenas
reflexões intermináveis sobre a pessoa de Deus. Tão importante quanto o pensar
e estudar sobre Deus é o de agir conforme sua revelação. Falaremos mais sobre
isso em tópicos posteriores.
2. Qual a importância do seu estudo?
“É
realmente necessário estudar teologia?” Essa pergunta geralmente é feita por
aqueles que não entenderam o que, de fato, é teologia. Todos aqueles que
professam uma fé são, em última análise, teólogos, pois todos racionalizam
sobre quem Deus é, ainda que incorretamente ou inconscientemente. O que leva as
pessoas a indagarem sobre a necessidade da teologia é o academicismo extremado
que permeia os lábios de muitos ministros e estudiosos que, de tanto buscarem
conhecer a respeito de Deus, esqueceram de conhecê-lo e, em suas vaidades,
falam um idioma que se distancia muito da realidade na qual a maioria dos
crentes estão inseridos.
Ferreira
e Myatt (2007) vão afirmar que teologia sempre foi crucial na vida da igreja e
que os autores do Novo Testamento foram os primeiros teólogos. Ela foi o
instrumento usado por Deus em momentos decisivos da igreja, tais como a Reforma
Protestante, onde o rompimento entre dois tipos de teologia foi decisivo na
separação do protestantismo do catolicismo, e completa: “viver a vida cristã
sem as doutrinas cristãs é como jogar futebol sem a bola: é simplesmente
impossível”.
Tendo
em vista que a base de toda teologia é a Bíblia e ela consiste em um
“comunicado infalível e absolutamente verdadeiro, feito em linguagem humana,
que se originou de um Deus infinito, pessoal e moralmente perfeito”[1],
concluímos que a reflexão acerca dessa verdade é imprescindível para o povo de
Deus e o desprezo por isso pode abrir portas para muitas mentiras dentro da
igreja de Cristo.
Mais
alguns fatores que tornam o estudo teológico importante:
a) O
próprio Cristo deixou claro que a salvação depende do correto entendimento
sobre quem Ele é (João 8.24; Gálatas 1.9).
b) Ajuda
pastores e pregadores na elaboração de sermões que edifiquem a igreja, como uma
das ferramentas na tarefa de anunciar “todo desígnio de Deus”.
c) Aquilo
que cremos afeta nosso modo de agir e reagir em nossa realidade.
É lamentável ver denominações inteiras não se preocuparem
com a formação de seus membros e, em especial, dos seus obreiros. Certamente
esse é um dos pilares da crise que assola a igreja hoje, onde muitos tem visto
o estudo sério das escrituras como uma perda de tempo. É sobre isso que
falaremos no próximo tópico.
3. Teologia “esfria” o crente?
Quando
nos referimos a esfriamento, no senso comum evangélico, todos associam ao
“comodismo espiritual”, ou seja, é o momento na vida do crente em que a verdade
do evangelho já não mais “arde” em seu coração e aquela poderosa mensagem que o
salvou já não passa de um passado memorável. Não há mais desejo pelo Eterno.
Oração e meditação nas Escrituras são hábitos esquecidos.
Por
vezes, com certa dose de merecimento, os teólogos são acusados de serem frios
na fé. Essa dose de merecimento vem daqueles que, de fato, tornaram a teologia
um ídolo, um fim em si mesma, esquecendo-se de que ela é um simples meio para
nos levar a um conhecimento mais íntimo com o Criador ou, nas palavras de
Ferreira e Myatt (2007): “a teologia DEVE oferecer respostas que levem as
pessoas a um relacionamento mais profundo com Deus.”
A
razão disso, creio, é uma disposição que há em nosso coração enganoso (Jeremias
17.9) de distorcer e tornar impuro tantas coisas boas que o Senhor nos deixou.
A teologia é um método de pensar sobre Deus e isso pode ser feito em
conformidade com a própria vontade Dele para nós, ou podemos coloca-la como
ídolo em nosso coração. Caso optemos por esse último caminho, nos
envaideceremos em nossa “ciência” e passaremos a seguir um alvo diferente, onde
nos tornaremos deuses de nós mesmos e nossa teologia será o picadeiro onde
atuaremos disfarçados de divindade.
Contudo,
o comportamento de alguns teólogos não deve ser projetado sobre todos aqueles
que levam a sério o estudo de Deus. A Bíblia como um livro rico e dinâmico leva
todo estudioso a duas conclusões óbvias: i) nossa extrema limitação diante de
um Deus tão infinito e sábio; ii) a necessidade de nossa eterna gratidão a esse
Deus que escolheu revelar-se a essa criação caída e dar uma nova chance de
relacionamento com ele. Entendendo corretamente a mensagem bíblica e sendo
impactado por essas verdade,s não há espaço para que a teologia possa “esfriar”
ninguém, pelo contrário, levará o crente a um relacionamento mais vivo e
sincero com o Senhor.
4. Como estudar Teologia?
Em
seu clássico livro de Teologia Sistemática, Erickson (2015) faz uso do modelo
de três camadas de Bernard Mayo[2],
especialista em ética, que criou esse modelo para descrever diversos aspectos
da ética e da moralidade. Segundo ele, tais atividades, em qualquer área, se
dividem sempre em três camadas: 1) aqueles que estão engajados na prática; 2)
os críticos, são os que avaliam os que estão na primeira camada; e 3) os
filósofos, que são os que debatem os critérios avaliados pelos críticos da
segunda camada.
Em
relação a fé cristã, podemos utilizar abordagem semelhante, onde as camadas se
dividem da seguinte forma:
1ª
Camada: crentes praticantes, são aqueles cujas ações, em seu todo, se
direcionam pelas diretrizes dadas pela fé cristã. Erickson nos lembra que: “a
atividade da primeira camada não pode ser realizada efetivamente até que o
conhecimento adquirido seja incorporado a própria natureza da pessoa”. Ou seja,
cristãos “nominais” não se enquadram aqui e também em nenhuma outra camada.
2ª
Camada: são aqueles que fazem reflexões conscientes da doutrina. São os
Teólogos (no sentido restrito do termo), pastores, professores de Escolas
Bíblicas, etc. É uma tentativa de pensar mais profundamente sobre o significado
dessas doutrinas, bem como de correlaciona-las de maneira intencional. O
objetivo da segunda camada, aplicada a fé cristã, é o de avaliar se os da
primeira camada estão, de fato, agindo dentro da ortodoxia.
3ª
Camada: são os teóricos da Teologia. Pensam sobre o sentido e as possibilidades
da mesma, buscando refiná-las ou relacioná-las com novos desdobramentos. São
homens que ditam modelos e novas tendências metodológicas na teologia.
A
partir dessas divisões, Erickson faz a seguinte ressalva: os componentes das
duas camadas superiores devem, necessariamente, serem da 1ª camada. Do
contrário, corre-se o risco do enclausuramento na “torre de marfim”. Não há
problema em estar na 2ª ou 3ª camadas, são componentes importantes na esfera
cristã, contudo, o teólogo não pode perder-se em um academicismo distante da
realidade dos irmãos mais simples.
Ferreira
e Myatt (2007) vão nos colocar isso de forma bem clara: “Aquele que acha que
pode ser um teólogo teórico, protegido na academia, distante do povo, está
redondamente enganado. Quem não faz teologia tendo em mente as necessidades do
povo nos bancos da igreja não é um teólogo cristão de verdade. O fato de que
quase todos os teólogos de mais influência na história da igreja também eram
pastores.”
Portanto,
como devemos estudar teologia? Para resumir esse questionamento, responderemos:
com humildade o suficiente para reconhecer que o que sabemos sobre Deus é
insignificante frente a quem Ele, de fato, o é. Com gratidão por, ainda assim,
poder conhecer essa minúscula revelação Dele mesmo e com a lembrança de que
esse pouco conhecimento é um dever que nos é imposto para com nossos irmãos,
para servi-los com o que sabemos e ajudá-los em suas necessidades da fé.
5. Conclusão: um alerta aos estudantes.
Richard Baxter[3],
pastor inglês do Século XVII, notando um esfriamento espiritual muito danoso em
seus colegas de ministério, lamentou: “não é triste que nosso coração não seja
tão ortodoxo quanto nossa mente?”. Estudar a verdade não nos faz,
necessariamente, adotá-la como um estilo de vida. Na sincera luta em defesa da
verdade alguns esqueceram de manter o fervor. Lembremo-nos do conselho de
Spurgeon[4]
aos seus alunos: “não somos passivos transmissores de infalibilidade. Somos
sinceros instruidores de coisas que aprendemos, na medida em que podemos
captá-las”. Ou nas palavras de Thielicke (2014): “qualquer pessoa que deixe de
ser espiritual estará automaticamente desenvolvendo uma teologia falsa, mesmo
que seu pensamento seja puro, ortodoxo e afinado com sua tradição confessional.
Nesse caso, a morte está à espreita’. A teologia pode ser uma fria camisa de
ferro que nos aprisiona e sufoca até a morte.”
Assim, que possamos abandonar todo nosso sentimento de
superioridade e transformá-lo em gratidão por receber a graça de conhecer um
pouco mais, e não somente isso, mas usar todo nosso vigor para ensinar essa
verdade aos irmãos menos instruídos. Que a verdade e o amor possam andar de
mãos dadas!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ferreira, Franklin; Myatt, Alan. TEOLOGIA
SISTEMÁTICA: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto
atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.
Erickson, J. Millard. TEOLOGIA SISTEMÁTICA. São
Paulo: Vida Nova, 2015.
Geisler, Norman. TEOLOGIS SISTEMÁTICA: volume 1.
Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
Thielicke, Hemut. RECOMENDAÇÕES AOS JOVENS TEÓLOGOS
E PASTORES. São Paulo: Vida Nova, 2014.
[1] Geisler, 2010.
[2] MAYO,
Bernard. Ethics and the moral life. London:
Macmillan, 1958.
[3] Richard Baxter, MANUAL PASTORAL DE DISCIPULADO.
Editora Cultura Cristã, 2015.
[4]
Charles Spurgeon, LIÇÕES AOS MEUS ALUNOS – Volume
1. Publicações Evangélicas Selecionadas, 2014.
quarta-feira, 1 de março de 2017
O que aprendo com o Consciência Cristã (e outros eventos da mesma natureza)?
10:24:00 Thiago Holanda
Hoje cheguei da minha segunda participação na 19ª edição
do Consciência Cristã, que é um evento interdenominacional e ocorre anualmente
em Campina Grande (PB), sempre durante o feriado do Carnaval. Confesso que
estou bem cansado, porém satisfeitíssimo, pois foram dias de muito aprendizado,
confronto e consolo mediante exposições bíblicas e palestras muito bem
elaboradas. Difícil até de dizer o que foi mais precioso! Mas, enfim, não é
sobre minha experiência durante o evento que quero falar, mas o que aprendo e
levo comigo no pós-evento.
Nós, evangélicos, gostamos muito de movimentos desse
tipo. Conferências, congressos, seminários, etc. E que bom! É uma felicidade o
povo de Deus ainda se reunir em eventos para receber aprendizado bíblico e fortalecer
a comunhão de irmãos que, sem esses momentos, jamais se conheceriam! São
oportunidades únicas...o problema nisso tudo (e quero deixar claro que isso não
é culpa das organizações desses eventos) é a bagagem que trazemos para casa em
nosso imaginário. Disso, vejo 3 erros muito cometidos pelos crentes:
1. Participações superficiais: são aqueles que vão “na
onda” de outros e, até mesmo, se deixam empolgar pelas ministrações, contudo, o
que é dito não é absorvido. Não há uma reflexão e aplicação das verdades de
Deus expostas no evento na vida daquele crente. Ele ouve, acha bonito, mas não
pratica nada!
2. Participações idólatras: são um pouco parecidos com os
primeiros, a diferença é que estes costumam “puxar o bonde”[1],
ou seja, se planejam com muitíssimos meses de antecedência, poupam dinheiro,
perdem noites de sono com ansiedade, vibram, anotam tudo, choram, mas acaba
tudo ali. O evento é o pico alto da vida espiritual daquelas pessoas e depois
que retornam para suas igrejas locais tornam-se, novamente, os mesmos crentes
medíocres de antes, até o dia de injetarem essa dose de adrenalina outra vez.
3. Soberbos e amostrados: voltam “arrotando” santidade.
Sentem-se parte de uma casta superior da igreja por participarem de eventos
assim e são agora membros de um clube V.I.P do céu que, aparentemente, terá
espaço reservado nas cadeiras mais próximas de Jeová durante as bodas do
cordeiro! Tudo porque? Porque foram agraciados por Deus com a oportunidade de
participar de um momento de aprendizado que muitos irmãos, por motivos de
trabalho e/ou financeiro, não puderam estar presentes. Em vez de usarem o
aprendizado para abençoar outras vidas, usam-no para humilhar irmãos na fé! Lembro
de uma moça da minha igreja que participou de uma escola de missões durante
alguns dias e voltou para a igreja e reuniu os jovens para dizer em alto e bom
som: “antes eu não sabia o que era ser uma cristã de verdade, pois nunca me
ensinaram e agora eu aprendi tudo e vi o quão fútil eu era”, detalhe: essa moça
sempre fez parte de uma igreja bíblica e sadia.
Bem,
citei alguns erros comuns que cristãos cometem nesse contexto, mas quero
responder a seguinte pergunta: o que EU procuro fazer quando retorno de eventos
assim?
1.
Recapitular todo
conhecimento adquirido: procuro, ao longo do evento, anotar tudo que é dito,
desde ideias centrais dos preletores até dicas de livros e citações de outros
autores. Sempre que posso, passo a limpo para meu computador todos os rabiscos
feitos.
2.
Reaplicar e
meditar esse conhecimento: é a continuação natural do passo 1. Não posso
permitir que tudo fique na mente, é necessário que essas verdades desçam ao meu
coração. Medito novamente nos sermões, vou em busca das passagens bíblicas de
suporte e, até mesmo, procuro escrever compromissos pessoais com Deus a partir dessas
verdades.
3.
Usar o aprendizado
em minha igreja local: aqui é algo que acontece de forma mais dissipada. Com o
passo 2, as verdades entram no meu coração e me levam para mais perto do Senhor
e, a partir disso, me torno mais habilitado para ajudar meus irmãos na igreja local
em momentos de pregação e/ou aconselhamento. De que adiantaria “engordar” com
tantas ministrações sem usar essas “calorias” para ajudar irmãos em Cristo a
correrem junto comigo?
Assim, vocês que frequentam esses eventos, procurem
direcionar essa participação para glória de Deus. Contudo, isso só vai
acontecer quando as verdades ali ministradas os fizerem mais humildes ao ponto
de reconhecerem que precisam mais e mais da graça do Senhor, bem como entenderem
que outros ao seu lado também precisam disto, e tiverem a coragem de ajuda-los
nesse sentido.
Vocês que ainda não costumam frequentar esses eventos,
não o deixem de fazê-lo por conta de testemunhos impróprios de pessoas que
cometeram alguns dos deslizes citados! Não! Participem, aprendam, ouçam! Deus
tem muito a compartilhar conosco por meio de irmãos que dedicaram, às vezes,
décadas de profundo estudo e meditação nas escrituras. Ao negligenciar isso,
vocês poderão perder uma grande chance de amadurecer na fé.
Para finalizar: precisamos reconhecer que a caminhada
com Cristo é longa e dinâmica, não podemos parar! Alguém já disse que andar com
o Senhor é como pedalar uma bicicleta: se parar, cai.
“Desenvolvei
a vossa salvação com temor e tremor” (Filipenses 2:12 )
Em Cristo,
Thiago Holanda.
[1]
Influenciar outros para que também participem, caso você não seja familiarizado
com essa gíria.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Quando a Teologia entra na cabeça, mas não no coração.
11:01:00 Thiago Holanda
No último domingo o Brasil tomou um susto: “apóstolo”
Valdemiro Santiago foi esfaqueado enquanto realizava um culto na sede de sua
igreja, no Brás (São Paulo). Aparentemente não foi nada grave, visto que filmagens
divulgadas mostram o mesmo indo embora andando, sem muita dificuldade, de sua
igreja (acompanhado por um batalhão de seguranças). Mas não é sobre esse episódio
que quero tratar, mas das reações ao fato.
Todo mundo sabe que Valdemiro (e seus semelhantes) não são
muito bem quistos pela parte mais esclarecida da população (inclusive
evangélica), e não foi surpresa nenhuma quando ouvi muitos amigos lamentarem o
fato do agressor não conseguir sucesso em sua empreitada. Contudo, me causou
surpresa ver cristãos dizerem o mesmo, especialmente uma página do Facebook.
Vejam:
Reações como essas, vinda de cristãos, me causam grande
estranheza. Essa página, em especial, é conhecida por outras declarações igualmente
polêmicas e para nossa tristeza maior: existem muitos outros perfis iguais.
Confesso que refleti muito nisso tudo e fico preocupado com
essa nova geração de jovens que se levanta em nossas igrejas ansiosos por defender
a verdade. Expor posicionamentos tão cruéis e radicais de forma escancarada
numa rede social repleta de neófitos e inimigos do evangelho é, no mínimo, um
desserviço ao reino de Deus. Ah, mais um detalhe: não interessa o que o
Valdemiro fez/faz, não estamos aqui falando do seu falso evangelho, muito menos
de sua manipulação barata de gente ignorante para benefício próprio. Não se
trata dele, mas de nós. Isso mesmo, estou falando do NOSSO coração.
Sou de berço assembleiano e sempre ouvi críticas aos que se
dedicavam um pouco mais ao estudo bíblico. O alerta era sempre o mesmo: “cuidado,
Teologia esfria o crente!”. Não precisa dizer o quanto acho essa ideia ridícula
e que, na verdade, está mais para uma desculpa esfarrapada de crentes com
preguiça de ler e que preferem confiar cegamente no que dizem seus pregadores
dominicais. Porém, não vou mentir: existe um grupinho de estudiosos que faz jus
a isso.
Richard Baxter, pastor inglês do Século XVII, notando um
esfriamento espiritual muito danoso em seus colegas de ministério, lamentou: “não
é triste que nosso coração não seja tão ortodoxo quanto nossa mente?”[1].
Isso nos revela o quão antigo é esse problema: estudar a verdade não nos faz,
necessariamente, adotá-la como um estilo de vida. Jovens que tiveram a graça de
conhecer um pouco mais de teologia , começaram a se afastar dessa mesma verdade tão ardorosamente
defendida. Na sincera luta em defesa da verdade, esqueceram de manter o fervor.
Lembremo-nos do conselho de Spurgeon aos seus alunos: “não somos passivos
transmissores de infalibilidade. Somos sinceros instruidores de coisas que
aprendemos, na medida em que podemos captá-las”[2].
Meu conselho aos jovens que estão calorosamente a procura de
debates virtuais a fim de mostrarem todo seu recém-adquirido conhecimento
teológico é: “antes de tudo, lembrem-se da sua nova identidade!” E para
completar meu conselho, peço ajuda a Paul Tripp: “ou você obtém sua identidade
verticalmente, de quem você é em Cristo, ou você procurará por ela
horizontalmente, nas situações, experiências e relacionamentos da vida diária.”[3]
Que possamos abandonar todo nosso sentimento de superioridade
e transformá-lo em gratidão por receber a graça de conhecer um pouco mais, e
não somente isso, mas usar todo nosso vigor da juventude para ensinar essa
verdade aos irmãos menos instruídos. Minha oração é: que a verdade e o amor
possam andar de mãos dadas!
Um último aviso:
“Qualquer pessoa que deixe de ser espiritual estará
automaticamente desenvolvendo uma teologia falsa, mesmo que seu pensamento seja
puro, ortodoxo e afinado com sua tradição confessional. Nesse caso, “a morte
está à espreita”. A teologia pode ser uma fria camisa de ferro que nos
aprisiona e sufoca até a morte[4].”
(Helmute Thielicke)
Em Cristo,
Thiago Holanda.
[1] Richar
Baxter, MANUAL PASTORAL DE DISCIPULADO. Editora Cultura Cristã, 2015.
[2]
Charles Spurgeon, LIÇÕES AOS MEUS ALUNOS – Volume 1. Publicações Evangélicas Selecionadas, 2014.
[3]
Paul Tripp. VOCAÇÃO PERIGOSA: os tremendos desafios do ministério pastoral.
Editora Cultura Cristã, 2014.
[4]
Hemut Thielicke. RECOMENDAÇÕES AOS JOVENS TEÓLOGOS E PASTORES. Editora Vida
Nova, 2014.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
A Justificação pela Fé em Gálatas 2.15-21.
16:03:00 Thiago Holanda
Observação: esse artigo foi escrito como trabalho de conclusão da
A
epístola aos Gálatas representa uma incisiva defesa do evangelho. Paulo, usando
sua perspicácia teológica, faz uma defesa bem elaborada da verdadeira salvação
em Jesus Cristo. Mas, o que estava acontecendo para que essa defesa fosse
necessária?
No
primeiro século da era cristã existiam duas igrejas fortes e dinâmicas:
Jerusalém e Antioquia. A primeira, predominantemente judaica, possuía grande
prestígio, por ser a sede do próprio judaísmo e onde estavam a maioria dos apóstolos.
Antioquia era predominantemente gentílica e crescia bastante, basta observar
que Paulo e Barnabé eram missionários desta igreja. Ao ver o crescimento
acelerado do evangelho em Antioquia, alguns membros da igreja de Jerusalém foram visita-la
e começaram a constranger os gentios a seguir rituais do judaísmo, como a
circuncisão. Paulo e os lideres, ao serem informados do fato, foram para
Jerusalém a fim de realizarem o primeiro concílio da igreja e discutir essa
matéria, o que é narrado em Atos 15.
O
concílio foi unânime: somente a fé em Jesus Cristo salva. Decidida a questão,
enviaram Paulo e Barnabé para inúmeras igrejas com o propósito de tratar desse
assunto e comunicar a decisão do concílio. Contudo, enquanto Paulo e Barnabé
seguiram um caminho, os judaizantes seguiam outro e começaram também a visitar algumas
igrejas, a fim de “judaizá-las” e atacar a figura do apóstolo Paulo. Uma dessas
igrejas foi a da Galácia. Paulo, então, ouvindo que o desvio doutrinário
chegara aos gálatas, redige essa epístola e, com um tom ácido, exorta os irmãos
a voltarem para o verdadeiro evangelho.
Inúmeros
argumentos, apelos e explicações são desenvolvidas pelo apóstolo ao longo da
epístola. Nesse artigo, queremos abordar sobre um dos trechos, onde o apóstolo
trata especificamente sobre uma das doutrinas centrais do cristianismo, a
justificação pela fé. Vejamos:
Gálatas 2:15-21
(15) Nós, judeus por natureza e não pecadores
dentre os gentios,
(16) sabendo, contudo, que o homem não é
justificado por obras da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também
crido em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não por
obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne será justificada.
(17) Mas se, procurando ser justificados em
Cristo, fomos nós mesmos também achados pecadores, é porventura Cristo ministro
do pecado? De modo nenhum.
(18) Porque, se torno a edificar aquilo que
destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor.
(19) Pois eu pela lei morri para a lei, a fim de
viver para Deus.
(20) Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não
mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé
no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.
(21) Não faço nula a graça de Deus; porque, se a
justiça vem mediante a lei, logo Cristo morreu em vão.
O contexto dessa passagem é a
narrativa de Paulo acerca de uma discussão com Pedro, onde este, de forma
dissimulada, se afastou da comunhão com os gentios por conta da chegada de um
grupo de judaizantes. Paulo, então, repreendeu-o publicamente, passando a
discursar sobre a justificação pela fé. Analisemos o conteúdo da mensagem:
- versos 15,16: Paulo estava
lembrando que eles, judeus convertidos a Cristo, já tinham conhecimento de que
as obras da lei não justificavam nenhum homem diante de Deus. É como se Paulo
quisesse dizer: “Nós sempre nos achamos melhores que os gentios pecadores, pois
éramos o povo escolhido, mas agora a mensagem do evangelho nos impactou
profundamente, pois descobrimos que somos pecadores iguais a todos os outros, e
que a obediência a lei não salva ninguém”. Paulo estava preparando o terreno
para dizer: se nós já sabemos de onde provém nossa salvação, porque iríamos impor o jugo desnecessário da lei sobre os gentios?
- verso 17: Esse verso é complexo e
possui muitas interpretações. Hendrinksen[1]
diz que Paulo estava fazendo uma pergunta retórica, ou seja: “se” os Judaizantes
estivessem corretos na necessidade de observância da lei, Cristo faria com que
os homens pecassem, pois foi o próprio que, em vários momentos, ensinou a
justificação somente pela fé. Cristo disse que não é o que entra pela boca que
contamina o homem, mas o que sai (Mt 15.1-20), que todos os alimentos são
limpos (Mc 7.19) e que os homens são salvos somente por confiar nele (Mt
11.25). Seria um absurdo afirmar tal coisa.
- verso 18: ‘aquilo que destruí’ é a
salvação baseada nas obras da Lei. Assim, se voltarmos a vida pregressa e
acharmos que nossos méritos podem configurar posição de justiça diante de Deus,
então, na verdade, estou me tornando, novamente, um transgressor.
- verso 19: para entender bem esse
verso, é mister lembrarmos que Paulo foi um judeu exemplar, no sentido de que
sua observância da lei era destaque entre os seus semelhantes em tempos de
farisaísmo. Em Filipenses 3.6 ele diz que sua conduta, quanto à justiça que há
na lei, era irrepreensível. Contudo, Paulo considerou tudo isso como nada, pois
ao ter encontro com a graça de Cristo entendeu que era o principal dos
pecadores e que somente por meio de Jesus era possível alcançar paz com Deus. Ou
seja, somente “morrendo para a lei” era possível “viver para Deus”.
- verso 20: essa passagem tem sido
muito querida pelos cristãos de todas as épocas, pois resume toda a mensagem do
evangelho num aparente paradoxo: a verdadeira vida está em participar da
crucificação de Cristo. Não no sentido literal, mas por meio da fé Nele, onde o
mesmo torna-se senhor de tudo. Paulo está chegando a reta
final desse impactante discurso sobre a justificação somente pela fé com uma
mensagem do tipo: “sou tão indigno e sem méritos que, para poder viver, preciso
estar morto em Cristo, pois Ele precisa viver em mim”. Cristo “viver” no
cristão significa que, quando Deus olha para esse cristão, não o vê morto em
delitos e pecados, mas vê Cristo santo e justo. Isso é justificação!
- verso 21: o que significa “fazer
nula a graça de Deus”? Aplicando ao contexto da passagem e lembrando que Paulo
estava dirigindo esse discurso aos que estavam presentes no conflito com Pedro,
podemos concluir que significa algo assim: “se eu acreditasse que meus méritos
poderiam conquistar boa situação diante de Deus eu faria nula a graça de Deus,
e isso eu não faço!” Acreditar que somos merecedores de algo por parte de Deus
tornaria a graça irrelevante e, por conseguinte, a morte de Jesus na cruz um
ato totalmente desnecessário.
Portanto, a passagem analisada aqui
finda o capítulo 2 expondo aos gálatas uma situação tensa, porém necessária,
entre os dois apóstolos. Paulo não usa a situação no intuito de humilhar ou de
sobressair a Pedro. O que estava em jogo era algo muito mais valioso que
reputações, era a própria pureza do evangelho.
[1] HENDRIKSEN,
Willian. Comentário do NT – Gálatas.
São Paulo: Cultura Cristã. 2009.
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