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terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Os esquecidos pelo caminho



 

Recentemente encontrei uma colega cujo pai trabalhou como pastor de uma igreja local por muitos anos. A igreja dele era vinculada a uma denominação muito grande, com diversas outras igrejas coirmãs, todas vinculadas a uma igreja sede. Ao questionar como estava seu pai, fiquei surpreso com a resposta: “papai está afastado há anos, deixou o pastorado e hoje já não frequenta mais nenhuma igreja”.

Constrangido pela resposta, tentei mudar o foco da conversa, mas ela continuou: “fico triste pelo papai, mas também fico triste pela denominação. Nenhum dos outros pastores, nem mesmo os que exerciam liderança sobre ele, jamais se importaram de saber como ele estava. Nem mesmo uma ligação telefônica”.

Histórias como essa se repetem em inúmeras outras comunidades cristãs ao redor do mundo. Pessoas que passam pelas nossas igrejas, às vezes vivem intensamente a comunhão dos santos (as vezes não), trabalham arduamente em prol do reino, mas, em determinado momento, por circunstâncias diversas, se afastam da igreja e parece que ninguém se importa com isso. São os esquecidos pelo caminho. Essa indiferença, além de grotesca e completamente distante do amor de Cristo, tem criado um exército de ressentidos com a igreja.

Não estou aqui tentando atenuar a responsabilidade dessas pessoas de deixar a igreja ou virar as costas para a fé. Não é isso. Cada um deve vigiar e permanecer de pé (1 Coríntios 10.12). Todos prestaremos contas de nossos atos e responderemos diante de Deus, sem ter o “privilégio” de apontar dedos para ninguém.

Contudo, como igreja, precisamos fazer uma “mea culpa” e entender que falhamos muito no papel de dar atenção aos que estão fraquejando. Convido você a refletir: “quantas vezes você já reparou que determinado(a) irmão(ã) tem faltado os últimos cultos e decidiu ligar para saber como a pessoa estava?” ou “quantas vezes você se juntou a um grupo de irmãos para visitar alguém que deixou de ir à igreja?”.

Parece que hoje é muito mais fácil envolver-se com a organização do reino do que propriamente com o reino em si. De que adianta sermos uma igreja repleta de programações, com um louvor impecável, um lindo ministério de teatro, e um culto festivo, se, quando um de nós se perde, não há ninguém suficientemente sensível para se importar?

Inúmeros pastores e líderes vivem cegos pelo desejo de ver suas igrejas crescerem, renderem mais dízimos, se tornarem mais dinâmicas, etc...mas eles enxergam a igreja como mera coletividade, esquecendo-se que ela é formada por indivíduos que enfrentam, cada um, suas próprias guerras e, por isso, precisam do apoio pastoral para sobreviverem.

Conheço um amigo que passou muitos anos ocupando um cargo de liderança em sua igreja local. Tentou dar o melhor de si e cuidar do rebanho que lhe foi confiado. Devido a alguns problemas de convivência, se viu obrigado a deixar a liderança e mudar de igreja. Durante o processo de transição, nenhum dos seus pastores jamais o telefonou para saber: “está tudo bem”? Esse amigo ficou ressentido e desabafou: “Poxa, passei tanto tempo cuidando dos outros, mas quando chegou a minha vez, cadê minha ajuda?”. Pela graça de Deus, esse amigo permanece firme na fé e a indiferença da igreja não o matou espiritualmente.

Porém, nem sempre os finais são felizes assim, e não são poucos os ressentidos com uma igreja local que demonstrou não se importar. Em Colossenses 3.13, Paulo diz: “suportando-vos uns aos outros”. O termo usado por Paulo faz referência ao ato de “ser um suporte” para outras pessoas. Ou seja, se estou fraco alguém será meu suporte no momento de dificuldade. Um dia, chegará o momento em que eu “devolverei o favor” e serei o suporte de outra pessoa. E assim caminha o povo de Deus.

A igreja é o único hospital onde todos somos médicos e pacientes o tempo inteiro.

 

Em Cristo,

Thiago Holanda

27/02/2024

domingo, 8 de outubro de 2023

Por que tantas lideranças cristãs estão emocionalmente doentes?


 

Nos últimos anos tenho percebido um acontecimento que, infelizmente, tem se tornado cada vez mais comum: crentes saindo das igrejas feridos por lideranças emocionalmente doentes. Líderes que, por ciúmes, incredulidade, amor ao poder ou qualquer outra razão fútil, têm machucado o rebanho do Senhor e ajudado a criar um exército de ressentidos com a igreja.

Já ouvi muitos relatos de amigos que viveram, ou conhecem quem viveu, uma situação de abuso emocional oriunda de uma liderança religiosa. Esse tipo de ferida é uma das mais difíceis de cicatrizar, já que ela nasce dentro de um ambiente que supostamente deveria nutrir amor e cuidado. Um líder cristão é um agente comissionado por Deus para cuidar do rebanho aqui na terra enquanto o Supremo Pastor não retorna, e quando esse cuidado dá lugar ao abuso, dores muito profundas são criadas.

Por que isso acontece? É difícil responder essa pergunta, e talvez sejam necessárias outras opiniões de pessoas mais experientes e maduras que eu. Contudo, recentemente ouvi um pequeno trecho de uma entrevista com um pastor americano (infelizmente, não memorizei o nome e nem o link para recomendar) que afirmava algo muito interessante:

“Liderar”, dizia ele, “é um verbo e não um substantivo. Isso significa que liderar é algo que você faz, mas que não quem você é. Então quem você é? Você é FILHO, e isso sim é um substantivo. Talvez o substantivo mais importante de todos.”

Achei essa abordagem fenomenal. Liderar é algo que fazemos para Deus, mas não é quem SOMOS em Deus. Somos filhos do seu amor. Salvos pela sua eterna graça e perdoados pela sua santa misericórdia. Essa é nossa real identidade.

Contudo, me parece que inúmeros líderes, esqueceram-se disso e hoje incorporam dentro de si um verbo que não tem função de definir quem eles são. “Deus está mais interessado em quem você é, do que no que você faz”, é o que diz Hernandes Dias Lopes. Quando, então, assumimos uma falsa identidade, perdemos o padrão de Deus para nossas vidas e, inevitavelmente, erraremos o alvo.

Não é fácil rastrear a origem disso, mas suspeito que tem a ver com uma falta de prestação de contas. É comum encontrarmos líderes que “reinam” absolutos em suas congregações, sem prestar contas de suas vidas espirituais a ninguém, colocando a si próprios em um pedestal inatingível. Não aceitam confrontação e nem mesmo nenhum tipo de questionamento a respeito da sua “super-santidade”. Supostamente cuidam do rebanho, mas não se permitem ser cuidados.

Essa falta de prestação de contas é extremamente perigosa para a igreja, pois todos nós, independente de nossas posições no reino, somos sujeitos a falha. Em todo o tempo somos desafiados e corrigir a nossa vida diante de Deus.

Um exemplo bíblico válido é o de Saul. Note que o primeiro rei de Israel foi escolhido pelo próprio Deus! É fato que Deus aconselhara o povo a não escolher um rei, mas diante da teimosia de Israel, Deus escolhe Saul. O início da jornada do primeiro rei de Israel foi muito linda. Ele foi escolhido por meio do profeta Samuel. Foi ungido e recebeu um novo coração. Profetizou diante do povo. Ele não começou com o pé esquerdo, pelo contrário, a sua jornada começou muito bem!

Então, o que aconteceu para que tudo desse errado?

Entendo que em algum momento Saul perdeu a noção da sua identidade e isso se destaca em 1 Samuel 13:8-14, quando ele, ao enfrentar os filisteus, “avança o sinal” e faz algo que jamais poderia ter feito: ofereceu holocausto, contrariando diretamente a lei de Deus. A história nos conta que a motivação de Saul era infantil: ele viu o povo se dispersando em meio a uma batalha difícil e, sem paciência para esperar Samuel, oferece sacrifícios como forma de manter o povo unido.

Note que o grande pecado de Saul aqui foi a incredulidade. Ele havia sido escolhido sobrenaturalmente por Deus. Foi miraculosamente transformado em um novo homem e já havia vencido outras batalhas anteriormente. Porém, ele não se lembrou de nada disso no momento da ansiedade e esqueceu-se completamente de Deus. Decidiu basear-se em seus próprios méritos e assumir um papel que a lei de Deus não permitia.

Acredito que em algum momento Saul pode ter pensado: “Poxa, mas eu sou O REI. Qual o problema nisso? Se eu sou o Rei, eu posso o que eu quiser, para que tanta cerimônia?”. Saul tornou-se um líder cego e embriagado pela sua própria soberba. Acreditou que, por conta da sua posição, poderia submeter a lei do Senhor aos seus caprichos e pecou. Ele esqueceu que REINAR era o que Ele fazia, mas que de fato ele não era o rei. Israel tinha outro Rei. Na verdade, Saul era apenas um servo.

Esquecer-se da sua real identidade foi a maior falha já cometida por Saul e ele pagou um preço caro por isso. Nos versículos 13 e 14, Samuel diz:

“Procedeste nesciamente, e não guardaste o mandamento que o Senhor teu Deus te ordenou; porque agora o Senhor teria confirmado o teu reino sobre Israel para sempre; Porém agora não subsistirá o teu reino; já tem buscado o Senhor para si um homem segundo o seu coração, e já lhe tem ordenado o Senhor, que seja capitão sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que o Senhor te ordenou.”

Um líder jamais pode esquecer sua real identidade de filho. Se esquecermos, cairemos em pecado e causaremos desgraça não apenas a nós mesmos, mas ao povo santo do Senhor.

Se você é um líder e está lendo esse texto, CUIDADO! Não permita que a liderança o deixe cego e sem rumo. Lembre-se que, acima de qualquer outra coisa, você é filho(a) do verdadeiro Rei. Você pode até estar pastoreando o povo de Deus, mas existe um verdadeiro pastor que cuida do seu rebanho, e Ele é Jesus.

Se, por acaso, você é alguém que foi ferido por uma liderança tóxica, saiba que Cristo viu o que você passou e sofreu essa injustiça junto a você. Se doeu em você, doeu muito mais Nele. Há cura para o seu coração ressentido e você não deve culpar a igreja do Senhor por causa de alguns maus representantes. Ore e peça a Deus que envie alguém para sua vida que seja capaz de transmitir, com muito cuidado, o verdadeiro amor de Cristo.

Oro para que esse texto encontre morada em corações que precisam entender que apenas em Cristo temos a nossa verdadeira identidade.

 

Deus te abençoe.

 

Em Cristo,

Thiago Holanda – 08/10/2023.