História

Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

sábado, 31 de março de 2018

A Jornada dos Magos (por T.S. Eliot)




T.S Eliot foi um conhecido poeta americano, Nobel de Literatura em 1948. Esse poema em si é uma fantástica perspectiva que o autor nos dá sobre os reis que visitaram o nascimento de Cristo. A última estrofe, em especial, pode nos levar a profundas reflexões.

A Jornada dos Magos (T. S. Eliot)
Tradução: Ivan Junqueira

Foi um frio que nos colheu
Na pior quadra do ano
Para uma viagem, e longa era a viagem:
Os caminhos enlameados e o tempo adverso
Em pleno coração de inverno.”
E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis,
Jaziam em meio à neve derretida.
Foram momentos em que recordamos
Os palácios estivais sobre os penhascos, os terraços,
As sedosas meninas que nos traziam afrodisíacos.
E depois os cameleiros que imprecavam e maldiziam
E desertavam, e exigiam fêmeas e aguardente.
E os fogos da noite em bruxuleio, a falta de apriscos,
As cidades hostis, as vilas inóspitas,
As aldeias sujas e tudo a preços absurdos.
Foi uma rude quadra para nós.
Ao fim preferimos viajar à noite
Dormindo entre uma e outra vigília,
Com vozes que cantavam em nossos ouvidos, dizendo
Que aquilo tudo era uma loucura.

E eis alcançamos pela aurora um vale ameno,
Úmido, sob a linha da neve, impregnado de aromas silvestres,
Com o regato e um moinho a fustigar as trevas,
E três árvores recortadas contra o céu baixo,
E um velho cavalo branco a galope pelo prado.
E chegamos depois a uma taverna com parras sobre as vigas;
Seis mãos se viam pela porta entreaberta
A disputar peças de prata com seus dados,
E pés que golpeavam os odres já vazios
Mas nenhuma informação nos deram, e então seguimos
Para chegarmos ao crepúsculo, sequer um instante antes,
E encontrarmos o lugar; foi (podeis dizer) satisfatório.

Tudo isso há muito tempo se passou, recordo,
E outra vez o farei, mas considerai
Isto considerai
Isto: percorremos toda aquela estrada
Rumo ao Nascimento ou à Morte? Um nascimento, é certo,
Tínhamos prova, não resta dúvida: um nascimento e morte contemplei,
Mas os pensara diferentes; tal nascimento era, para nós,
Amarga e áspera agonia, como a Morte, a nossa morte.
Regressamos às nossas plagas, estes Reinos,
Porém aqui não mais à vontade, de acordo com a antiga ordem divina,
Onde um povo estranho se agarra aos próprios deuses.
Uma outra morte me será bem vinda.

Original:

The Journey of the Magi

A cold coming we had of it,
Just the worst time of the year
For a journey, and such a long journey:
The was deep and the weather sharp,
The very dead of winter."
And the camels galled, sore-footed, refractory,
Lying down in the melting snow.
There were times we regretted
The summer palaces on slopes, the terraces,
And the silken girls bringing sherbet.
Then the camel men cursing and grumbling
And running away, and wanting their liquor and women,
And the night-fires gong out, and the lack of shelters,
And the cities hostile and the towns unfriendly
And the villages dirty, and charging high prices.:
A hard time we had of it.
At the end we preferred to travel all night,
Sleeping in snatches,
With the voices singing in our ears, saying
That this was all folly.

Then at dawn we came down to a temperate valley,
Wet, below the snow line, smelling of vegetation;
With a running stream and a water-mill beating the darkness,
And three trees on the low sky,
And an old white horse galloped away in the meadow.
Then we came to a tavern with vine-leaves over the lintel,
Six hands at an open door dicing for pieces of silver,
And feet kicking the empty wine-skins.
But there was no information, and so we continued
And arrived at evening, not a moment too soon
Finding the place; it was (you may say) satisfactory.

All this was a long time ago, I remember,
And I would do it again, but set down
This set down
This: were we lead all that way for
Birth or Death? There was a Birth, certainly,
We had evidence and no doubt. I have seen birth and death,
But had thought they were different; this Birth was
Hard and bitter agony for us, like Death, our death.
We returned to our places, these Kingdoms,
But no longer at ease here, in the old dispensation,
With an alien people clutching their gods.
I should be glad of another death.



sábado, 24 de fevereiro de 2018

Quando uma geração não conhece o Senhor (Juízes 2.10-12)




Depois que toda aquela geração foi reunida a seus antepassados, surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel. Então os israelitas fizeram o que o Senhor reprova e prestaram culto aos baalins. Abandonaram o Senhor, o Deus dos seus antepassados, que os havia tirado do Egito, e seguiram e adoraram vários deuses dos povos ao seu redor, provocando a ira do Senhor. (Jdg 2:10-12)

Quando o povo de Israel entrou na terra prometida, receberem uma ordem clara e direta de que deveriam expulsar todos os seus moradores, sem exceção. A tribo que foi comissionada para começar essa empreitada foi Judá. No início, as ordens foram obedecidas e os cananeus sofreram grande derrotas. O capítulo 1 de Juízes mostra o início feliz de uma história que tem um final bem triste.

O problema começou quando os Israelitas perceberam que, em vez de expulsar os cananeus, era mais lucrativo tributá-los. “Pra que o desgaste da guerra?”, pensaram eles. Cobrar pesados impostos era “conveniente”, pois além de poupar os esforços de batalha, trazia o benefício do ganho financeiro. Foi o que fizeram. Sobre esse episódio, Flávio Josefo[1] acrescenta:

“Os israelitas deixaram então de fazer guerra, desejando apenas desfrutar em paz e com prazer os muitos bens de que se viam cumulados. Sua abundante riqueza lançou-os no luxo e na volúpia. Não se incomodavam mais em observar a antiga disciplina e tornaram-se surdos à voz de Deus e às suas santas leis. Assim, atraíram-lhe a cólera, e Ele lhes fez saber que era contra a sua ordem que eles poupavam os cananeus e que tempo viria em que, no lugar da bondade dispensada aos cananeus, experimentariam a crueldade deles.”

Foram muitos os problemas futuros que essa má decisão causou. Primeiro, os cananeus tornaram-se motivo de laço para Israel, no sentido de contaminar o coração do povo A proximidade geográfica da nação eleita com esses povos gerou uma venenosa comunhão de culturas e costumes que os levou a idolatria. O quadro piora muito a partir do capítulo 2, onde narra a morte de Josué e toda a geração que ele tinha liderado. Começa então o declínio total da nação, pois “surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel”.

Note que é uma dupla ignorância. Primeiro, não conheciam a Deus: sua pessoa, caráter, atributos, santidade, etc. Ou seja, não tinham relacionamento com o Senhor. Segundo, não conheciam o que ele havia feito. Há pessoas que sabem o que Deus fez, ainda que não se relacionem com Ele. Reconhecem seus feitos, ainda que os corações estejam distantes. Aqui vemos que nem mesmo esse aspecto estava presente. Era uma ignorância tanto da pessoa de Deus, quanto de todos os livramentos e operações milagrosas do passado.

Isso trouxe horríveis consequência para o povo. Vejamos:

1.    “os israelitas fizeram o que o Senhor reprova e prestaram culto aos baalins”: afastar-se de Deus leva, necessariamente, à idolatria. É impossível um homem deixar os caminhos de Deus e permanecer “neutro” espiritualmente. O homem é essencialmente religioso e quando Deus não está no trono do seu coração, um ídolo já fez morada.

2.    “adoraram vários deuses dos povos ao redor, provocando a ira do Senhor”: Como Deus previa, os ídolos dos cananeus roubaram o coração do povo, por descuido deles próprios. Então, a ira do Senhor se ascendeu contra o seu próprio povo e a profecia de Juízes 2.3 se cumpriu: os deuses estranhos tornaram-se uma armadilha mortal.

Quando uma nova geração tem o coração distante de Deus, temos que encontrar as raízes do problema na geração anterior. Note que a falha da antiga geração não se resumiu a não se afastar do mal por meio da desobediência da ordem de Deus, mas também de não se aproximar suficientemente de Deus para conhecê-lo mais e fazê-lo conhecido entre seus filhos. A nova geração não conhecia a Deus porque não fora discipulada corretamente. Os pais não contaram aos seus filhos quem era o Senhor e o que ele fizera.

A culpa da antiga geração foi dupla: não afastar a má influência (outros povos) e não ensinar a próxima geração. Essa falha do povo de Israel inaugurou uma triste história de altos e baixos do povo, onde ora o povo servia fielmente a Deus, ora se afastava em direção aos ídolos. É o triste padrão do Antigo Testamento.

Essa falha pode nos ensinar muito como igreja hoje. Como estamos educando as novas gerações? Qual importância estamos dando ao discipulado dos mais jovens na igreja local? Nossa luta pelo evangelho hoje vai determinar não somente o presente da igreja, mas o futuro também. Paulo conhecia a história de Israel e provavelmente tinha essa preocupação em mente quando deu os seguintes conselhos:

Assim, poderão orientar as mulheres mais jovens a amarem seus maridos e seus filhos, a serem prudentes e puras, a estarem ocupadas em casa, e a serem bondosas e sujeitas a seus próprios maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada. (Tito 2:4,5)

E as coisas que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar a outros. (2 Timóteo 2:2)

Paulo se preocupava com a importância de passar o bastão do evangelho para a próxima geração. Mais velhos ensinando os mais novos é parte da dinâmica da igreja e não podemos negligenciar isso sob o risco de colocar todo o atual trabalho pelo reino em risco. Para encerrar esse texto, deixo o conselho do profeta Oseias:

“Conheçamos o Senhor; esforcemo-nos por conhecê-lo...” (Oséias 6:3)

Em Cristo,
Thiago Holanda.
24/02/2018.






[1] Historiador judeu, na coletânea “História dos Hebreus”, livro quinto, capítulo 2.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Calvino em Genebra: reformador ou ditador?



A História tem deixado de herança debates intermináveis sobre idéias, eventos e homens. Estes formam um esquadrão de personagens que jamais serão perfeitamente encaixados na galeria de heróis ou vilões, pois sempre haverá quem os acuse ou defenda de algo não totalmente esclarecido. Definitivamente, Calvino é um desses enigmas. Até hoje o reformador genebrino afigura-se como um personagem de destaque na história do protestantismo, desenvolvendo uma profunda defesa da fé e revelando uma genialidade singular. Se você já teve a oportunidade de ler Calvino, certamente reconhece a incrível capacidade desse pensador.
Vale considerar que, admirando-o ou não, Calvino foi um marco na história não só de Genebra, mas de toda a Europa. A cidade suíça já era oficialmente protestante antes da chegada do reformador, contudo, carecia de uma liderança forte para que mudanças pudessem ser, efetivamente, implantadas. Antes de Calvino, Genebra era uma cidade “bagunçada”, com prostituição e bebedices generalizadas. Stier, Poor e Orvis (2008) citam que sua fama se espalhou como a mais fedorenta da Europa. Boyce e Ryken (2014) dizem:

“Entre as depravações comuns na cidade rica estavam a embriaguez, conduta desordeira, os jogos de azar, a prostituição e o adultério. Os cidadãos de Genebra eram conhecidos por ocasionalmente correrem nus pelas ruas entoando canções vulgares e até mesmo blasfemas. Práticas comerciais desleais, como a usura, eram comuns. A cidade também era perturbada por dissensões que um observador descreveu como ‘facções ímpias e perigosas’.”

Harkness (1958) afirma que Calvino não implantou uma Teocracia em Genebra, mas um “governo bibliográfico”. Ou seja, as Escrituras assumiram uma posição-chave no governo da cidade, tendo em Calvino a figura de autoridade responsável pela correta interpretação e aplicação no dia-a-dia da cidade. De acordo com Stier, Poor e Orvis (2008), a estratégia dos reformadores na administração dessas cidades seguiam 3 pilares:

1. Pregar o evangelho aos indivíduos para que as pessoas possam ser salvas e possam entrar no processo de transformação, e restabelecer a pureza na igreja de acordo com a Palavra de Deus.
2. Ensinar a cidade, para que as pessoas saibam como viver, as autoridades saibam como governar, e todos saibam como trabalhar dentro de suas esferas; e
3. Sistema de prestação de contas para os indivíduos e líderes em cada área da sociedade, para que os ensinamentos não ficassem somente na teoria, mas que fossem aplicados em todas as áreas da vida.

A partir dessa “reviravolta” espiritual, a cidade deu um salto significativo em sua qualidade de vida. Pela primeira vez, houveram investimentos maciços na educação e saúde. Crianças passaram a freqüentar regularmente a escola, hospitais se tornaram acessíveis aos mais pobres e, devido ao crescente número de protestantes fugindo das perseguições católicas em outros países, a ação social na cidade também se tornou uma prática contínua. Há relatos, inclusive, de que Calvino hospedava muitos desses refugiados em sua própria casa.
Contudo, a história deixou registrado um lado obscuro de toda essa mudança. Há quem acuse Calvino de ter exercido um poder despótico, controlando indevidamente a vida dos cidadãos da cidade. Robert Wright[1] diz que Calvino governou Genebra tão brutalmente quando Joséf Stalin, na Rússia. A maior acusação é a de hipocrisia. Segundo os críticos, Calvino e seus seguidores protestaram veementemente contra a perseguição protestante em países como França, mas ao assumirem a liderança do governo em Genebra, teriam imposto perseguição ainda mais dura. Durant (1950) afirma que:

“Censura de imprensa foi usada e ampliada sobre os Católicos e precedentes seculares: livros…com tendências imorais foram banidos…falar desrespeitosamente de Calvino ou do clero era crime. A primeira violação dessas ordens era punida com uma advertência, violações posteriores com multas, persistir na violação com prisão ou banimento da cidade. Fornicação era punida com o exílio ou afogamento; adultério, blasfêmia ou idolatria com a morte…uma criança foi decapitada por agredir seus pais. Nos anos de 1558-1559 houve 414 processos por ofensas morais; entre 1542 e 1564 houve 76 banimentos e 58 execuções; a população de Genebra era na época de 20.000 pessoas.”

Hunt (2015) afirma que a imposição de regras rígidas de controle social sob o governo de Calvino parece uma tentativa, incoerente, de estabelecer o reino de Deus na terra mediante os próprios esforços, e completa:

“Aparentemente, ele era ignorante do fato de que o senso comum de que uma escolha genuína é essencial se o homem quer amar e obedecer a Deus ou mostrar uma compaixão real aos seus companheiros. Mas se esforço determinado de fazer os cidadãos de Genebra obedecer, Calvino refutou suas próprias teorias de Eleição Incondicional e Graça Irresistível. Aparentemente, o que ele provou, por anos de intimidação e força totalitária, foi o primeiro dos cinco pontos do calvinismo, a Depravação Total.”

É importante lembrar que não faltam vozes que o defendam, especialmente de teólogos que herdaram sua tradição teológica. Allister MacGrath[2] diz:

“Calvino não era um ditador de Genebra que governava a população com mão de ferro. Ele não foi sequer cidadão de Genebra em todo o tempo em que lá ficou, tendo assim seu acesso à autoridade política negado. Sua condição era simplesmente a de um pastor que não estava em posição de ditar ordens às autoridades magistradas que administravam a cidade. De fato, essas autoridades retiveram até o fim o direito de demitir Calvino, mesmo tendo optado por não exercer esse direito. Como membro do Consistório, ele era certamente capaz de fazer representações à magistratura em nome dos ministros — representações que, porém, eram ignoradas com freqüência… A influência de Calvino sobre Genebra consistia, em última análise, não em sua posição jurídica formal (que era insignificante), mas em sua autoridade pessoal considerável como pregador e pastor.”

Enfim, não pretendemos bater um martelo a respeito de questão tão difícil e que ocupa os debates da História por quase 500 anos. Calvino deixou um legado teológico imensurável para igreja, foi um líder e visionário em seu tempo e suas qualidades são reconhecidas, inclusive, por seus críticos[3]. Várias acusações feitas a ele são intensas e, se verdadeiras, revelariam um caráter sombrio do reformador. Contudo, jamais passaremos de suposições, visto que nossa percepção está nublada para acontecimentos tão historicamente distantes.


REFERÊNCIAS

BOICE, James M.; RYKEN, Philip G. As doutrinas da graça: resgatando o verdadeiro evangelho. Anno Domini, 2014.

DURANT, Will. Caesar and Christ. Pt. III of The History of Civilization. New York: Simon and Schuster, 1950

HARKNESS, Georgia. John Calvin: The Man and his Ethics. New York: Abingdon Press, 1958.

HUNT, Dave. Que amor é este? Edição – São Paulo: Editora Reflexão, 2015.

STIER, Jim; POOR, Richlyn; ORVIS, Lisa. Venha Teu Reino. Editora Jocum Brasil, 2008.





[1] Ensaísta e escritor americano.
[2] Citação encontrada no livro de Boice (2014).
[3] Hunt (2015) reconhece que “ele despendeu a si mesmo e encurtou a sua vida visitando doentes, cuidado do rebanho e pregando continuamente.”