sábado, 24 de fevereiro de 2018

Quando uma geração não conhece o Senhor (Juízes 2.10-12)




Depois que toda aquela geração foi reunida a seus antepassados, surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel. Então os israelitas fizeram o que o Senhor reprova e prestaram culto aos baalins. Abandonaram o Senhor, o Deus dos seus antepassados, que os havia tirado do Egito, e seguiram e adoraram vários deuses dos povos ao seu redor, provocando a ira do Senhor. (Jdg 2:10-12)

Quando o povo de Israel entrou na terra prometida, receberem uma ordem clara e direta de que deveriam expulsar todos os seus moradores, sem exceção. A tribo que foi comissionada para começar essa empreitada foi Judá. No início, as ordens foram obedecidas e os cananeus sofreram grande derrotas. O capítulo 1 de Juízes mostra o início feliz de uma história que tem um final bem triste.

O problema começou quando os Israelitas perceberam que, em vez de expulsar os cananeus, era mais lucrativo tributá-los. “Pra que o desgaste da guerra?”, pensaram eles. Cobrar pesados impostos era “conveniente”, pois além de poupar os esforços de batalha, trazia o benefício do ganho financeiro. Foi o que fizeram. Sobre esse episódio, Flávio Josefo[1] acrescenta:

Os israelitas deixaram então de fazer guerra, desejando apenas desfrutar em paz e com prazer os muitos bens de que se viam cumulados. Sua abundante riqueza lançou-os no luxo e na volúpia. Não se incomodavam mais em observar a antiga disciplina e tornaram-se surdos à voz de Deus e às suas santas leis. Assim, atraíram-lhe a cólera, e Ele lhes fez saber que era contra a sua ordem que eles poupavam os cananeus e que tempo viria em que, no lugar da bondade dispensada aos cananeus, experimentariam a crueldade deles.

Foram muitos os problemas futuros que essa má decisão causou. Primeiro, os cananeus tornaram-se motivo de laço para Israel, no sentido de contaminar o coração do povo A proximidade geográfica da nação eleita com esses povos gerou uma venenosa comunhão de culturas e costumes que os levou a idolatria. O quadro piora muito a partir do capítulo 2, onde narra a morte de Josué e toda a geração que ele tinha liderado. Começa então o declínio total da nação, pois “surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel”.

Note que é uma dupla ignorância. Primeiro, não conheciam a Deus: sua pessoa, caráter, atributos, santidade, etc. Ou seja, não tinham relacionamento com o Senhor. Segundo, não conheciam o que ele havia feito. Há pessoas que sabem o que Deus fez, ainda que não se relacionem com Ele. Reconhecem seus feitos, ainda que os corações estejam distantes. Aqui vemos que nem mesmo esse aspecto estava presente. Era uma ignorância tanto da pessoa de Deus, quanto de todos os livramentos e operações milagrosas do passado.

Isso trouxe horríveis consequência para o povo. Vejamos:

1.    “os israelitas fizeram o que o Senhor reprova e prestaram culto aos baalins”: afastar-se de Deus leva, necessariamente, à idolatria. É impossível um homem deixar os caminhos de Deus e permanecer “neutro” espiritualmente. O homem é essencialmente religioso e quando Deus não está no trono do seu coração, um ídolo já fez morada.

2.    “adoraram vários deuses dos povos ao redor, provocando a ira do Senhor”: Como Deus previa, os ídolos dos cananeus roubaram o coração do povo, por descuido deles próprios. Então, a ira do Senhor se ascendeu contra o seu próprio povo e a profecia de Juízes 2.3 se cumpriu: os deuses estranhos tornaram-se uma armadilha mortal.

Quando uma nova geração tem o coração distante de Deus, temos que encontrar as raízes do problema na geração anterior. Note que a falha da antiga geração não se resumiu a não se afastar do mal por meio da desobediência da ordem de Deus, mas também de não se aproximar suficientemente de Deus para conhecê-lo mais e fazê-lo conhecido entre seus filhos. A nova geração não conhecia a Deus porque não fora discipulada corretamente. Os pais não contaram aos seus filhos quem era o Senhor e o que ele fizera.

A culpa da antiga geração foi dupla: não afastar a má influência (outros povos) e não ensinar a próxima geração. Essa falha do povo de Israel inaugurou uma triste história de altos e baixos do povo, onde ora o povo servia fielmente a Deus, ora se afastava em direção aos ídolos. É o triste padrão do Antigo Testamento.

Essa falha pode nos ensinar muito como igreja hoje. Como estamos educando as novas gerações? Qual importância estamos dando ao discipulado dos mais jovens na igreja local? Nossa luta pelo evangelho hoje vai determinar não somente o presente da igreja, mas o futuro também. Paulo conhecia a história de Israel e provavelmente tinha essa preocupação em mente quando deu os seguintes conselhos:

Assim, poderão orientar as mulheres mais jovens a amarem seus maridos e seus filhos, a serem prudentes e puras, a estarem ocupadas em casa, e a serem bondosas e sujeitas a seus próprios maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada. (Tito 2:4,5)

E as coisas que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar a outros. (2 Timóteo 2:2)

Paulo se preocupava com a importância de passar o bastão do evangelho para a próxima geração. Mais velhos ensinando os mais novos é parte da dinâmica da igreja e não podemos negligenciar isso sob o risco de colocar todo o atual trabalho pelo reino em risco. Para encerrar esse texto, deixo o conselho do profeta Oseias:

Conheçamos o Senhor; esforcemo-nos por conhecê-lo...” (Oséias 6:3)

Em Cristo,
Thiago Holanda.
24/02/2018.






[1] Historiador judeu, na coletânea “História dos Hebreus”, livro quinto, capítulo 2.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A lealdade de Itai (2 Samuel 15.19-22)



Uma vez ouvi um provérbio popular bem interessante que dizia: “Quer conhecer um homem? Dê-lhe poder. Quer conhecer os verdadeiros amigos de um homem? Tire-o do poder!”. A infelicidade trás consigo o mérito de revelar quem são os nossos verdadeiros amigos, e os homens mais sábios do mundo já deram prova disso (Provérbios 17.17).

Um homem cuja história muito nos ensina a esse respeito é Itai, um personagem bíblico que aparece muito rapidamente na história de Israel, mas que demonstra um caráter forte e real integridade. Ele era Geteu[1] e havia apoiado a ascenção de Davi ao trono de Israel, seu nome significa “comigo”[2], e não temos muitas informações além dessas. Vamos ao contexto do seu aparecimento.

Absalão fora perdoado por Davi da morte de Amnom e volta para Jerusalém. Depois de 2 anos, é autorizado a encontrar-se com seu pai e então começa uma campanha silenciosa e mortal para usurpar o trono. Quando consegue concretizar o levante, Absalão surpreende Davi e o faz fugir vergonhosamente de Jerusalém. É nesse contexto que a Bíblia narra a seguinte cena:

O rei disse então a Itai, de Gate: "Por que você está indo conosco? Volte e fique com o novo rei, pois você é estrangeiro, um exilado de sua terra. Faz pouco tempo que você chegou. Como eu poderia fazê-lo acompanhar-me? Volte e leve consigo os seus irmãos. Que o Senhor o trate com bondade e fidelidade! " Itai, contudo, respondeu ao rei: "Juro pelo nome do Senhor e por tua vida que onde quer que o rei, meu senhor, esteja, ali estará o seu servo, para viver ou para morrer! " Então Davi disse a Itai: "Está bem, pode ir adiante". E Itai, o giteu, marchou, com todos os seus soldados e com as famílias que estavam com ele. (2 Samuel 15:19-22, NVI)

Note que Davi não exigiu que Itai fizesse a difícil escolha de seguí-lo. Sim, era uma escolha difícil, pois esse episódio marca o início de uma guerra sangrenta entre Davi e Absalão. Tomar partido por Davi era uma escolha que tornaria qualquer um imediamente inimigo de Absalão. Davi o dispensou disso e ainda lembrou: “você é estrangeiro aqui, não tem obrigação legal de ser fiel ao meu reinado!”. Contudo, a resposta de Itai é impressionante: “Seguirei-te para viver ou para morrer!”. Que amizade! Que fidelidade! Imagino o alento que veio ao coração de Davi naquele momento de tanta angústia. “Ainda tenho amigos!”, talvez seja isso o que ele tenha pensado.

A fidelidade de Itai foi recompensada no futuro. Quando venceu a guerra contra Absalão e recuperou o trono, Davi o nomeou comandante de um terço de seu exército (2 Samuel 18.2,5,12). Não sabemos muito sobre o que aconteceu com ele depois desses acontecimentos.

O que podemos aprender com Itai? Além do precioso exemplo de amizade e fidelidade, vemos uma ligação simbólica entre a relação dele com o Rei Davi e a nossa com Cristo, o Rei dos reis. Itai era um exilado que viu o rei que o “adotou” ser desprezado e escurraçado do seu próprio reino por homens ímpios. Contudo, Itai confiava em seu rei e mesmo sabendo que o futuro poderia ser doloroso pelos próximos meses de guerra, o seu rei retornaria ao trono vitorioso. Itai somos cada um de nós. Nosso rei foi desprezado pelo mundo e sua mensagem foi ridicularizada. Homens impiedosos o massacraram e tentaram frustrar seus planos, contudo, ele venceu! Sim, Jesus venceu! A vitória já foi alcançada. Porém, ainda vivemos temporariamente como exilados enquanto nosso Rei não encerra todas as coisas. Ainda enfrentamos sofrimentos nessa terra e nossa vida carregará fardos dolorosos. Enfim, aguardamos confiadamente que o Rei voltará pra nos levar de volta pra casa e então todos o verão assentado em seu trono manjestoso.

A lição de Itai nos ensina sobre amizade e fidelidade ao próximo em momentos de angústia, mas também nos mostra que devemos permanecer fiéis ao Rei dos reis, custe o que custar, pois Ele já venceu a guerra!


Em Cristo,
Thiago Holanda.
19/02/2018.





[1] Geteus eram soldados mercenários de Gate. Ou seja, filisteus. Haviam apoiado e se juntado a Davi.
[2] De acordo com o “Brown-Driver-Briggs'  Hebrew Definitions”

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A verdadeira admiração é míope


Todos nós, em alguma medida, admiramos e somos admirados. Minha vocação é o ensino e amo o que faço. Deus, pela sua graça, tem aberto portas para que eu possa usar o meu dom em diversos lugares além da minha igreja local, e tem sido bondoso comigo no momento do ensino em algumas escolas missionárias onde sou professor voluntário.

É maravilhoso ver o Espírito Santo me ajudando a clarificar alguns assuntos para jovens iniciantes na fé. Por conta disso, alguns alunos têm me procurado ao final dessas aulas para agradecer pelo momento de aprendizado, alguns me adicionam no Facebook, outros me convidam para ministrar em suas igrejas e, inclusive, tem aqueles que se tornam bons amigos. Por favor, não pense que estou me gabando de nada, não é isso. Preciso chegar a ideia central desse texto e quero me usar como exemplo. Então, não veja vanglória em minhas palavras...

Enfim, é interessante perceber como todos nós gostamos de admirar figuras distantes da nossa realidade. Pessoas que não convivem conosco, logo não nos maltratam com suas fraquezas e não nos ferem com suas palavras (pela simples falta de oportunidade), mas tornam-se alvo de nossa sincera admiração sem ponderarmos se, de fato, são merecedoras disso. Talvez seja por isso que os gurus façam tanto sucesso mundo afora.

“O que é um guru?”, você pergunta.

Guru é um especialista em alguma coisa (marketing, gestão, finanças, crescimento de igrejas, etc), que vem de longe e tem todas as soluções que precisamos na palma da mão. Ah, é importante que ele venha de longe, pois se fosse um próximo perceberiamos que não é guru de nada. Os gurus sempre sabe “de tudo”, ainda que não possam atestar isso, afinal, nunca sabemos nada sobre eles.

O fato é que a verdadeira admiração é míope. Só é válida se nos ver bem de perto e contemplar toda nossa fraqueza e insignificância. Somos verdadeiramente admirados por aqueles que já presenciaram vários dos nossos tombos e, ainda assim, conseguem enxergar a graça do Altíssimo operando em nós e através de nós.

Se tem alguém do seu lado que depois de ver muitos dos seus fracassos, ainda consegue olhar pra você e admirar quem você é, acredite: essa admiração é realmente importante. De nada valeria a admiração dos meus breves alunos de escolas missionárias se eu não tivesse a admiração dos jovens da minha igreja, que já presenciaram momentos ruins do meu ministério, e de nada valeria a admiração dos meus jovens se eu não tivesse a da minha esposa, que já conheceu as piores versões de mim mesmo.

Oro pra que Deus me ensine a valorizar os que estão próximos a mim, vendo Cristo em seus tombos e levantes, assim como outros possam continuar vendo o mesmo em mim.


Em Cristo,
Thiago Holanda
13/02/2018.


OBSERVAÇÃO: Miopia é uma condição do olho caracterizada por má visão à distância, fazendo com que os objetos distantes sejam vistos desfocados, enquanto que os objetos próximos parecem normais.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Faça sua lista de amigos com caneta, e não use corretivo!


Recentemente vi um conhecido publicando essa imagem ao lado em uma rede social e confesso que fiquei intrigado e imediatamente discordei da mensagem transmitida. Isso me levou à refletir no conceito que as pessoas têm de amizade e como geralmente tratamos esse presente (de Deus) de maneira tão supérflua. Vamos a algumas considerações:

a)   O que é um amigo? A Bíblia diz que um amigo serve para qualquer momento, inclusive na adversidade (Pv 17.17). Sempre estará presente para nos ajudar e muitas vezes tem mais proximidade conosco do que um familiar distante (Pv 27.10). Amigo é aquele que nos repreende em sinceridade e faz isso por amor (Pv 27.5). Amigos devem curar-se mutuamente, motivando qualidades e freando defeitos um do outro (Pv 27.17). Numa amizade verdadeira, sempre seremos médicos e pacientes ao mesmo tempo. A gente sempre fica parecido com nossos amigos, pois a convivência faz a gente “pegar” muita coisa um do outro (Pv 13.20). C.S Lewis vai dizer que a verdadeira amizade não é construída com base na semelhança de personalidade, mas da igualdade de propósitos: “Só podem ser amigos aqueles que caminham para o mesmo destino.” Dito isto, a conclusão lógica é que a amizade é uma relação intensa e duradoura, que não se conquista em pouco tempo e muito menos se perde assim tão facilmente. Aquele que acha que deve escrever a lista de amigos a lápis, a fim de apagar na primeira crise que enfrentar, deve saber que na verdade não tem amigo nenhum nessa lista, pois os reais amigos são companheiros nas mais difíceis circunstâncias. Essa é a essência da amizade.

b)  Toda amizade deve passar pelo teste do tempo. Já dizia um sábio [1]: “O tempo é o senhor de tudo e Deus é o Senhor do tempo.” Depois do próprio Soberano, o tempo é o melhor professor que dispomos. Amigos se constroem com o tempo. Não acredito que alguém que apareceu na nossa vida há pouco tempo já possa ser considerado um “amigo para todas as horas”. Muitas crises deverão ser vividas e superadas, e a confiança é como um pilar, que pode suportar grandes estruturas, mas que se não for construído com materiais usados na medida certa, pode sofrer danos irreversíveis. Contudo, é interessante notar que algumas amizades não se mantém pela proximidade, mas pelo amor mútuo, que não aumenta ou diminui por estar perto ou longe, mas é auto-alimentanda pela própria decisão de amar. Isso significa que algumas pessoas serão nossas amigas para sempre, mas só estarão perto de nós durante uma fase específica da vida. Depois disso, Deus levará ambos para caminhos diferentes segundo Seus propósitos, restando-nos a sabedoria de aceitar e entender que há tempo para tudo. Costumo olhar para trás e ver algumas pessoas que Deus me deu e depois levou para longe, e hoje entendo que o tempo destas pessoas comigo teve de acabar para que essas pessoas pudessem viver a mesma fase na vida de outras. Como alguém que está aprendendo muito lentamente a ser grato, eu tenho que imitar à Jó e dizer: “Deus deu, Deus levou, louvado seja o nome do Senhor!” 

c)   Descobrir a superficialidade de uma amizade revela o quanto nós precisamos escolher melhor. Quando vi a mensagem motivadora deste texto na postagem do meu colega, não resisti e comentei o quanto eu discordava dessa visão superficial de amizade. Para se defender, ele comentou algo como: “Cara, tem muita gente falsa por aí, é difícil alguém ser amigo de verdade!”. Concordo com a primeira parte, existe muita gente falsa se passando por amiga. Porém, nós é quem abrimos a porta do nosso coração para deixar os outros entrarem e se nossos critérios são poucos ou mesmo superficiais, só posso dizer uma coisa: se você deixou algum falso amigo entrar em sua vida, a culpa é sua também! Nós devemos ser criteriosos e maduros antes de considerar alguém como amigo para todas as horas, para que possamos ter a certeza de que escreveremos o nome de caneta, e não precisaremos jamais passar um corretivo!


Que Deus nos ajude a termos e sermos bons amigos!

Em Cristo,
Thiago Holanda
27/01/2018.




[1]  Não sei quem é o autor original dessa frase, mas a ouvi pela primeira vez numa entrevista que fizeram com o Zé Bruno, vocalista da Banda Resgate.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Pode alguém andar sobre brasas sem queimar os pés?


O título desse texto é um versículo que se encontra em Provérbios 6.28. Permita-me explicar o contexto: Salomão está falando dos perigos da mulher adúltera e dá várias advertências acerca dos pecados sexuais. No versículo anterior ele fará, inclusive, o primeira alerta com outra pergunta semelhante: “Pode alguém colocar fogo no peito sem queirmar a roupa?”.

A resposta óbvia para essas perguntas é NÃO! Claro que não! Qualquer leitor atento perceberá que são perguntas retóricas. Qual o alerta de Salomão? Simples: NÃO BRINQUE COM A TENTAÇÃO! É incrível como nós costumamos nos achar mais fortes do que de fato somos, e a forma como reagimos a algumas tentações são prova disso.

Alguns tipos de pecados são bem comuns entre a maioria das pessoas, como os sexuais (e é por isso que a Bíblia é tão recheada de alertas sobre isso), mas também temos fraquezas em áreas específicas da nossa vida, e somos tentados em coisas que outras pessoas não são. Contudo, não importa se a tentação enfrentada é tão comum como a sexual ou tão específica como a cleptomania (compulsão que leva um indivíduo a roubar coisas), devemos fugir, e não ficar bancando o super-herói espiritual.

Todos temos o Espírito Santo e inteligência dada por Deus para saber em que área somos vulneráveis. Identificadas essas “brechas”, temos o dever de vigiá-las atentamente, correndo para longe ao menor sinal de perigo! Isso mesmo, correndo para longe! Por exemplo, se um rapaz tem como fraqueza a pornografia, e nas suas redes sociais encontram-se moças que gostam de postar fotos sensuais, é obrigação dele bloquear esse tipo de conteúdo da sua timeline, caso contrário ele não estará fugindo o suficiente para escapar de uma armadilha para os olhos.

Talvez você pense que seja exagero, mas no que se trata da nossa santidade, toda recomendação bíblica deve ser obedecida. O apóstolo Paulo recomenda algo muito parecido para o seu jovem amigo Timóteo em 2 Tm 2.22: “Fuja dos desejos maligos da juventude...”. Paulo sabia que é um fracasso tentar vencer aquilo que é maior do que nós! Nosso coração é extremamente enganosos e sagaz e nos vencerá porque conhece nossas fraquezas, então fujamos!

Mas fugir pra onde? Bem, pode ser uma fuga física mesmo, como José fugiu da mulher de Potifar (Gn 39), ou mesmo uma fuga simbólica. Não importa se é literal ou não, o que importa é para onde você vai fugir: para os braços protetores do Senhor, por meio da oração e leitura da Palavra. Se nós temos interesse em sermos santos, imagine o interesse que o próprio Deus tem nisso. Através do Espírito Santo somos fortalecidos na graça e crescemos em força COM ELE, somente com Ele. Em nós mesmos não encontramos força necessária.

Talvez você tenha achado esse texto algo chato ou mesmo desnecessário. Entendo quem pensa assim. A luta contra o pecado é algo totalmente insiginifcante para aqueles que NÃO NASCERAM DE NOVO! Isso mesmo, se você não considera importante tudo que leu aqui, se não há em você o desejo de vencer o pecado, então o problema é outro: você precisa entregar sua vida a Jesus e crer nele como salvador. A partir dessa decisão inicial, o próprio Espírito Santo se responsabilizará por iniciar essa guerra contra o pecado em sua vida!

Portanto, FUJA das tentações e VENÇA o pecado pelo poder do Espírito Santo.

Encerro esse teto com uma frase especial do puritano Thomas Watson:
“Enquanto o pecado não for amargo, Cristo não será doce!”

Em Cristo,

Thiago Holanda

26/01/2018.




domingo, 21 de janeiro de 2018

Invencionices do coração.


Sempre que você for chamado por Deus para uma grande tarefa, tenha a certeza de que fortes oposições vão se levantar. Esse é o padrão bíblico de treinamento de grandes líderes. Deus não molda grandes personagens com uma vida fácil, todos sofrem lutas árduas enquanto são moldados pelo Espírito Santo. Gosto muito de uma frase do Hernandes Dias Lopes que nos lembra que “Deus sempre trabalha primeiro em nós para, depois, trabalhar através de nós!”. Uma das dificuldades que se levanta em nossa caminhada vocacional é a calúnia, ou seja, a fofoca mentirosa com o objetivo de prejudicar reputações, todos enfrentamos isso.

Neemias, enquanto lutava para reconstruir os muros de Jerusalém, enfrentou Sambalate e Tobias, estrangeiros que já de início não gostaram do projeto de Neemias, pois temiam a nação judaica e sabiam que eram potencialmente poderosos. O que estes dois homens queriam era que o povo de Deus continuasse vivendo na total miséria, pois somente assim continuariam reféns do medo. Contudo, Judá era o povo eleito de Deus e este providenciou o auxílio. O Senhor convoca, então, Neemias para essa difícil tarefa de reconstrução. Depois de muito escárnio e ameaças de invasão, Sambalate e Tobias partiram para a detratação e passaram a dizer que Neemias, de maneira ambiciosa, estava querendo se promover a rei de Israel para, no futuro, revoltar-se contra os povos vizinhos e, inclusive, contra o rei persa, que o havia enviado (Ne 6.1-9).

É duro ser acusado de algo que não se fez. Dói no coração estar com boas intenções e ser acusado de ganancioso e manipulador por aqueles cujo coração está sujo e cheio de inveja. Neemias dá uma resposta segura e digna de alguém que teme mais a Deus do que a homens: “De tudo o que dizes coisa nenhuma sucedeu; tu, do teu coração, é que o inventas” (6.8).  Neemias procurava, de maneira desinteressada, ajudar o povo de Deus a recuperar seu lugar na história e o próprio Senhor conhecia o seu coração, mas os inimigos queriam arruinar a sua reputação com mentiras e fazer com que o próprio povo de Judá se voltasse contra ele.

Você já passou por isso? Já sofreu com as invencionices de corações alheios? Já procurou seguir a jornada que Deus colocou em sua frente e, por conta disso, teve de enfrentar oposições daqueles que, no fundo, deveriam ser seus apoiadores? Caso sim, Neemias nos convida a lembrar da nossa identidade: somos filhos e soldados do Grande Rei. E mesmo que mal intencionamdos queiram nos atingir com suas línguas maléficas, não nos preocupemos, pois o que realmente importa é ser conhecido pelo Rei. A luta que Deus nos deu não pode parar sob ameaças e calúnias, mas deve ser fortalecida por meios destes obstáculos. Toda vez que sobrevivemos a tais problemas, nos tornamos mais maduros e certos de que nossa verdadeira identidade não será abalada.

E você? Andra promovendo isso? Talvez você seja a pessoa cujo coração está cheio de invencionices e, infelizmente, anda difamando outras pessoas com palavras venenosas e manipuladoras. Talvez você tenha medo do crescimento alheio e isso o faça enxergar o quanto está afundado numa zona de conforto. É possível que junto disso tenha uma boa pitada de inveja, e ver o que Deus está fazendo na vida de outros pode colocar em evidência todos os erros que um dia você já cometeu. Somado a tudo isso, podemos também encontrar uma porção de insegurança, isso mesmo, insegurança quanto ao que de fato você é. Por que não me alegrar quando o reino do Pai está em expansão, ainda que pelas mãos de outra pessoa? Somos inseguros porque não conseguimos entender como Deus está escrevendo a nossa própria história e preferiríamos que a história do outros fosse a nossa, mas como não é, alimentamos raiva e passamos a caluniar, pois já que não posso viver a história do outro, não quero que ninguém mais a viva!

Que Deus nos dê forças para vencer as invencionices dos corações alheios e nos proteja contra as sujeiras do nossos próprios!


Em Cristo,
Thiago Holanda

21/01/2018.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

4 lições em Neemias.


Neemias foi um personagem emblemático no Antigo Testamento. Sua contribuição para nós perpassa a contribuição histórica e ganha ares espirituais através do seu exemplo de caráter e fé. Gostaria de deixar alguns aprendizados que podemos ter com o mesmo nos dois primeiros capítulos de seu livro:

1. Ele tinha um coração solidário: somos informados que, ao receber a notícia de que seu povo estava na miséria, Neemias chorou e lamentou por muitos dias (1.4). Precisamos entender que Neemias ocupava uma função de muita confiança e destaque no reinado Persa e, por conta disso, deve ter vivido muito confortavelmente no palácio do rei. Contudo, essa “boa” vida que levava não o fez esquecer quem ele era: servo do verdadeiro Rei, o Rei de Israel e de todo o mundo. Seu coração permanecia fiel tanto a Deus como ao seu povo. Ao invés de ser indiferente aos sofrimentos dos seus conterrâneos, ele tornou esse sofrimento alheio em sua própria dor. Se você fosse abençoado por Deus com muitos recursos e/ou posições de destaques, continuaria lembrando sua identidade e origem? Quando foi a última vez que você se entristeceu, orou e jejuou por um problema alheio? Precisamos batalhar em oração pelos outros.

2. Ele reconhecia a culpa de todos, inclusive a sua: em 1.6 ele ora e pede perdão não somente pelos pecados dos que se achavam na miséria, mas também pelos que ele e a casa de seu pai haviam cometido. Neemias entende que a miséria do povo era uma culpa das escolhas idólatras do passado e que Deus havia alertado do perigo de afastar-se dele próprio (1.8). Ele poderia ter orado e intercedido somente pelos pecados alheios, mas Neemias reconheceu a necessidade de enxergar a si mesmo como parte culpada.

3. Ele era um homem de confiança: em 2.1-8 vemos um diálogo impressionante entre ele e o rei persa. É interessante ver como o Rei nota sua feição triste, o que nos leva a entender que ele era alguém especial para o rei e não somente mais um servo entre outros milhares. Incomodado, o monarca o questiona o porquê disso, e ao explicar suas razões e fazer seus pedidos, somos supreendidos novamente com a consideração do rei para com Neemias, liberando-o de suas funções para cumprir um propósito totalmente desinteressante para a Pérsia. Como se não fosse o suficiente, o rei ainda libera cargas de madeira sem custo algum, para ajudar na construção do templo. Neemias era um homem de confiança e certamente um profissional exemplar diante do rei. Suas atitudes ao longos dos anos devem tê-lo dado uma boa reputação diante do monarca. Nossos exemplos de cristãos em nossos locais de trabalho/estudo abrem ou fecham portas?

4. Ele reconhecia sua incapacidade: no final de 2.8 temos uma frase muito significativa, Neemias diz: “e o rei mas deu, porque a boa mão do Senhor era comigo.” Note bem, ele era possivelmente um profissional exemplar, que vivia confortavelmente e provavelmente gozava da estima de muitas pessoas na corte real, mas nada disso era mérito nenhum para ele! No fundo, uma verdade ressoava em seu coração: É DEUS! Ele não via suas conquistas como triunfos, mas como o agir do verdadeiro Rei do universo, Aquele que controlas os demais “reis” e move todas as coisas. Será que temos tal fé em nossas vidas?

Aprendamos com a vida desse personagem tão fantástico.

Em Cristo,

Thiago Holanda.
16/01/2018.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Não somos donos de ninguém



Em 1996, Jim Carrey atuou no filme “The Cable Guy” (‘O Pentelho’, em português). Nessa comédia, ele faz o papel de um instalador que recebe a proposta de burlar o sistema e colocar alguns canais a mais na casa de um cliente por uma propina de 50 dólares. Por ser um cara extremamente solitário, o personagem entende essa proposta como um convite para a formação de uma nova amizade e, a partir daí, começa a “sufocar” o cliente oferecendo uma “amizade” extremamente invasiva, o que acaba gerando uma série de problemas e assim segue o desenrolar do filme.

O interessante do filme é lembrar de personagens reais que fizeram (ou fazem) parte da nossa vida e oferecem um tipo de amizade muito parecida. O excesso de carência emocional (muitas vezes oriunda de uma família desestruturada, ou das complicações de se viver numa grande metrópole, ou ambas[1]) de algumas pessoas as faz depositarem toda a esperança de alegria, segurança e conforto num semelhante que jamais poderá atender essas expectativas. Pessoas assim parecem querer tomar posse de tal maneira da vida dos outros que as mais insignificantes atitudes podem causar as maiores confusões.

O nome disso é “dependência emocional”, ou seja, é ancorar o barco da minha vida no porto errado. É achar que minha alegria só poderá ser satisfeita se aquela determinada pessoa se tornar uma marionete dos meus mais obscuros desejos. Por favor, entenda: isso não é amor, é escravidão. Um dependente pode ser alguém naturalmente calmo e pacífico, mas que se transtornará, caso encontre seu ídolo descumprindo seus ditames.

A maior lição que um dependente precisa aprender é a de que não somos donos de ninguém, mas parceiros de viagem. A compreensão mais correta, no meu entender, de amizade, é a de que só poderemos caminhar com alguém se estivermos dispostos a olhar para ela“de lado”. Pois olhar “de cima” ou “de baixo” é doentio e jamais será amizade verdadeira, mas possessão e escravidão.

Já acompanhei quem vive assim e superar isso é um desafio e não quero passar a imagem de que lidar com esse problema seja fácil, jamais! Mas quero abrir os olhos para entendermos que nossa vida necessita de um singificado eterno e isso só pode ser alcançado se ancorarmos em Cristo, nosso verdadeiro amigo, o único a quem estamos autorizados a olhar “de baixo”, ainda que Ele se coloque ao nosso lado.

Confiando nisso, teremos libertação de todo cativeiro relacional e viveremos os verdadeiros desfrutes que somente uma boa amizade pode dar.

Em Cristo,
Thiago Holanda.




[1] Não quero me estender nesse tópico, mas grandes metrópoles tendem a transformar os relacionamentos e levar pessoas a cultivarem valores individualistas, com alto grau de competitividade e fragilidade de vínculos. Em relação as família, entendemos que elas são as principais responsáveis por moldar nossa visão sobre os demais relacionamentos que encontraremos na vida.